Indicados ao Grammy 2016 [3] – Gravação do Ano

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A categoria de Gravação do Ano do Grammy faz parte do Big 4 (os quatro prêmios mais importantes da Academia, incluindo Artista Revelação, Canção do Ano e Álbum do Ano), e contempla o performer da música, o produtor, e os engenheiros/mixadores da faixa. O Grammy de Gravação do Ano traz respeitabilidade ao artista, já que o foco aqui é na valorização de uma produção bem-feita juntamente com a interpretação do cantor/grupo – e artistas que não compõem o próprio material geralmente se dão bem por aqui, incluindo aqueles hitmakers, já que a maioria dos indicados aqui são os grandes sucessos do ano.

Na atual década (contando com 2010), os vencedores foram músicas marcantes, como “Use Somebody” do Kings Of Leon (2010), que chegou à quarta posição no Billboard Hot 100, posição pouco usual para canções de rock nos últimos anos; “Need You Now”, do Lady Antebellum, em 2011, a música que colocou o trio country como um dos grandes nomes do estilo nos EUA (#2 no Hot 100); “Rolling in the Deep” em 2012, que dispensa maiores comentários (#1); “Somebody That I Used To Know (2013), vencedora num ano especialmente difícil – mas as oito semanas no topo da Billboard e aquela premiação do Grammy ter sido bem indie-driven devem ter influenciado na decisão dos votantes.

2014 teve como vencedora “Get Lucky”, do Daft Punk, uma das faixas mais representativas da throwback disco-funk que rolou em 2013 (e um absurdo sucesso, com #2 no Hot 100). O último vencedor nessa categoria foi o britânico Sam Smith com “Stay With Me”, a óbvia vencedora num ano que, em retrospectiva, não estava muito complicado para ele levar – sem contar a igualmente óbvia qualidade da música – que aliás, chegou à segunda posição no Billboard Hot 100.

E agora, com uma série de hits entre os indicados – sem contar com um concorrente surpresa aqui – como a bancada do Grammy vai pensar?

D’Angelo and the Vanguard, “Really Love”
Mark Ronson feat. Bruno Mars, “Uptown Funk”
Ed Sheeran, “Thinking Out Loud”
Taylor Swift, “Blank Space”
The Weeknd, “Can’t Feel My Face”

D’Angelo and the Vanguard, “Really Love”

Após 14 anos sem lançar um álbum, o cantor de neosoul D’Angelo retornou em 2015 com o lançamento quase-surpresa de “Black Messiah”, um trabalho de neosoul e muitas experimentações que foi aclamadíssimo pelos críticos e valorizado como um quadro social e crítico das questões relacionadas aos negros americanos em 2015. D’Angelo, basicamente um mito R&B, aparece aqui com uma indicação bem surpreendente (a julgar que as casas de apostas colocavam o álbum dele como um provável indicado em Álbum do Ano, e não a música), através do primeiro single do álbum, “Really Love”.

Não é uma música fácil de ouvir, não vai tocar até cansar na rádio, tem cinco minutos e meio de duração com um minuto e meio de intro, e o vocal cheio de falsetes, agudinhos e sussurros circulando por toda a faixa, com sobreposições de coros, um violão meio latino e uma batida que lembra aquelas músicas de R&B que eram feitas nos anos 90 (sem contar o sample do Curtis Mayfield aqui). Uma produção sofisticada e super elegante, um trabalho de neosoul/R&B que o Grammy não premia ou sequer indica tem muito tempo – se já incluiu entre os indicados nas categorias principais, já que a música é muito restrita aos nichos R&B.

Aliás, o mérito de “Really Love” se torna seu principal calcanhar de Aquiles nessa corrida. O lançamento aclamado de “Black Messiah” e a relevância de D’Angelo na cena (tanto entre os ouvintes de R&B quanto na indústria musical em geral) impulsionaram indicações num ano particularmente disputado no field – que pode lhe dar mais prêmios nas categorias de R&B. No entanto, numa categoria em que “ser muito de nicho” é um problema (já que além de sucessos, os indicados em Gravação do Ano são músicas que não são tão extremadas dentro dos seus fields, possuem uma característica crossover), “Really Love” pode sobrar na corrida. Além disso, os outros indicados também obtiveram o sucesso que essa faixa não teve; além do impacto na cultura pop, na internet, a capacidade de ser viral, que é extremamente importante nos tempos que correm – algo impensado em 2000, quando D’Angelo lançou seu último álbum – o que o favorito aqui tem e de sobra.

(14 anos de hiato – por motivos pessoais – e vocês reclamando do ANTI…)

 

Mark Ronson feat. Bruno Mars, “Uptown Funk”

Ice cold, Michelle Pfeiffer, white gold, dancinhas no meio da rua, Bruno Mars de bobs e Mark Ronson de óculos escuros e uma guitarra. Toda vez que eu ouço “Uptown Funk”, aquela música que ficou nos seus ouvidos desde novembro do ano passado até metade do ano, eu já começo a cantar os versos, me achar tão foda que os dragões já podem se aposentar, e lembrar de todos os momentos do ótimo vídeo que viralizou em todos os lugares no primeiro semestre – sem contar com a corrida atrás do recorde de 16 semanas em #1 de “One Sweet Day” que seriam batidos se não fosse Paul Walker.

Mas “Uptown Funk” não é só um viral e um recordista nos charts. A música é um throwback aos bons tempos do funk da virada dos anos 70 para o 80, com metais nervosos, baixo groovadíssimo, bateria poderosíssima, sem contar com o Bruno emulando seu melhor James Brown numa faixa agressiva mas ao mesmo tempo extremamente catchy e comercial – e atualíssima, já que em nenhum momento soa mofada, datada, e cansa. Eu não tenho mais saco pra “Happy”, por exemplo; mas tô ouvindo e dançando “Uptown Funk” agora mesmo enquanto escrevo. Além disso, a união entre dois produtores que gostam de revisitar sonoridades antigas e dar um sabor atual (além de funcionarem bem juntos) faz com que a música, ao todo, seja um trabalho tão equilibrado e bem construído, mesmo com todos os instrumentos e os vocais, que você não vê pontas soltas ou overproducing.

Aqui nesta categoria, eu vejo “Uptown Funk” bem favoritão mesmo. É a Gravação do Ano em sua essência, por todo o impacto, sucesso e recepção aclamada da crítica no período do lançamento – e os nomes envolvidos são muito benquistos pela Academia. Os outros indicados tem chances de tomar esse gramofone de Mark Ronson e seu bff, mas é curioso como soaria esquisito demais o prêmio ficar em outras mãos. Se o prêmio é por produção da música (e claro, incluindo o performer), que música este ano conseguiu unir tantas influências antigas (e pouco recuperadas pelo mainstream, btw) e atualizar tudo isso, unindo todas as pessoas em torno de uma dancinha e de um refrão insistentemente grudento?

(por falar em hiatus, cadê meu terceiro CD seu Bruno? Já são três anos nessa brincadeira)

 

Ed Sheeran, “Thinking Out Loud”

O “hino dos casamentos” mostra a sua força mais uma vez com essa indicação a Gravação do Ano. “Thinking out Loud”, indicado também a Performance Pop Solo e Canção do Ano, talvez seja a canção mais bem sucedida de Ed Sheeran e a que todos vão se lembrar dele – seja pela letra relatável a todas as pessoas, ou pela baladinha pop com inspiração soul ou a sensação de atemporalidade. É a clássica música que todos vão cantar em karaokês daqui a 20 anos ou será incluída na playlist de “flashback” das rádios.

Não é sem razão. A produção simples, equilibrada, quase acústica, orgânica, com a guitarra acompanhando a canção, o piano tocando durante a música, a voz do ruivo sincera, poderosa, agradável aos ouvidos, a levada suave numa produção que repito, é boa por sua simplicidade. Não há camadas de voz, superprodução; é como se tivessem gravado uma sessão ao vivo da música e colocado no álbum de tão natural que a faixa soa aos ouvidos.

A longevidade de “Thinking Out Loud” é algo de outro mundo – já que o estouro da faixa foi ainda no início do ano, com o auge da “Uptown Funk Season”, o que deixou a música relegada ao segundo lugar por semanas. A faixa ainda foi performada no Grammy deste ano, numa apresentação super legal com a participação de Herbie Hancock no piano e John Mayer na guitarra. O “tempo de vida” da música meio que já passou, mas a força dessa música, essa atemporalidade e simplicidade conseguem empurrar a longevidade de TOL até esse ponto do ano – com a música indicada em três categorias diferentes do Grammy. No entanto, os dois problemas do Ed Sheeran aqui são: 1. tempo; e 2. “Uptown Funk”. Apesar de forte, a música já se esvaneceu da memória coletiva instantânea dos ouvintes casuais, o que afeta possíveis vitórias; e o impacto da concorrente funkeada é muito forte pra ser negado. Mais uma vez, parece que o britânico vai ficar na saudade.

(pior que a música merecia esse prêmio também. Tem anos que são difíceis)

 

Taylor Swift, “Blank Space”

Entre os rivais possíveis de “Uptown Funk”, o sucesso-assinatura de Taylor Swift é o mais próximo de tirar o gramofone do Mark Ronson. Os fatos são evidentes: um hit estrondoso que substituiu o antigo #1, “Shake It Off” – da própria Taylor – no topo dos charts; foram sete semanas consecutivas no topo; a faixa foi aclamada pelos críticos; o vídeo bateu recordes no Vevo e a música, em seu todo, é uma divertida e bem-vinda autoironia com a visão que as pessoas tem da Taylor como “devoradora de namorados”.

Uma verdadeira pérola pop, polida à perfeição pelo trabalho de produção do Max Martin e Shellback, onde menos é mais num pop com pegada eletropop e synthpop, além dessas baterias marcadinhas (e um violão ao fundo bem discreto, já notou?) e o vocal da Taylor, muito mais “Taylor” que na genérica “Shake It Off”. Não é surpreendente que a música tenha feito tanto sucesso – para além da cantora estar em todos os lugares naquela época, “Blank Space” é uma música excelente. É uma faixa pop que você não consegue ouvir na voz de outra artista, especialmente considerando que é a primeira incursão num “puro pop” da Taylor, e ela poderia muito bem ir atrás das tendências que bombavam no ano e entrar em terreno seguro. Pelo contrário: inspirando-se de forma extremamente sutil nos anos 80 e prefereindo seguir por um caminho mais direto no pop, sem influências de outros estilos, lançou um material coeso e que tem a cara da Taylor.

O problema que eu vejo em “Blank Space” é que, mesmo com o sucesso massivo e os recordes – sem contar com a respeitabilidade da Taylor entre a bancada do Grammy – se você fizer a prova dos nove, o impacto nos charts e no mundo pop de UF foi imenso. São músicas diferentes, não dá pra comparar quem é melhor, mas apesar de serem duas músicas pop excelentes, há alguma coisa em “Uptown Funk” que consegue transcender o ouvinte comum de música. Chega a todos os públicos, de oito a 80 anos; e tem essa mescla de throwback com atualidade, rendendo homenagens ao passado com um flavor atual, que a bancada sempre cai de amores. Além disso, Taylor Swift tem um bocado de Grammy pra ganhar ainda.

(ou não.)

 

The Weeknd, “Can’t Feel My Face”

O verão americano e o segundo semestre foram comandados pelo vento canadense de Abel Tesfaye aka The Weeknd, que com seu “Beauty Behind The Madness”, visibilidade em poucas mas selecionadas apresentações e músicas/vídeos estranhos e até creepy, se tornou o it-boy do pop. Talvez o candidato menos provável a ser estrela, já que sua musicalidade inicialmente não era muito acessível aos ouvidos do grande público, e até em seu álbum mais comercial boa parte das canções não parecem arrasa-quarteirão nas rádios. No entanto, “Can’t Feel My Face” – a faixa mais acessível e o departure do rapaz em relação aos trabalhos anteriores – se tornou hit massivo, ganhou comparações com Michael Jackson e ainda gerou dúvidas se o que Abel tá falando mesmo na música é sobre isso mesmo que você está pensando (drogas).

A outra produção do Max Martin indicada a Gravação do Ano não poderia ser um animal mais diferente de “Blank Space”. É uma faixa pop disco-funk com inspiração oitentista, mas embalado para algo atual, no entanto, sem parecer datada – e nem parecida com os disco-funks que bombaram em 2013. Com sintetizadores, agudinhos e um refrão que você não vai conseguir escapar, mostra o The Weeknd emulando seu melhor Michael Jackson (eu juro que aquela bridge com os backing cantando “I can’t feel my faaaaaace when I’m with youuuuu… but I love it” é o espírito do MJ cantando junto), se o Rei do Pop abraçasse seu dark side. Além disso, é mais uma prova da genialidade de Max Martin em conceber duas produções tão diferentes em sonoridade, tom e ambientação – e daí saírem duas músicas sensacionais que chegaram às indicações de Gravação do Ano.

“Can’t Feel My Face” é outra faixa com cara de vencedora dessa categoria – no entanto, o fato do Abel ser uma “novidade” (pense em “novidade” para o grande público) pode ser um problema para ele. Um novato já foi premiado no ano anterior, e desconsiderando o fato do Gotye também se classificar como um artista estabelecido que “estourou” aos olhos do grande público com “Somebody That I Used To Know” (e a Amy ter surgido para os EUA no segundo álbum), o último novato a ganhar um Grammy nesta categoria foi a Norah Jones em 2003. Não é comum darem Gravação do Ano para artistas novos na cena – e ainda na lógica da prova dos nove, tem músicas que impactaram bem mais o ano que “Can’t Feel My Face” e que estão na frente na corrida pelo gramofone.

(ou seja, aqui está nosso azarão)

 

CONCLUSÕES

Quem ganha: Acho a vitória de “Uptown Funk” bem óbvia.

Quem deveria ganhar: Acho que a vitória de “Uptown Funk” seria bem justa.

Quem será o “dark horse” da categoria: The Weeknd. Se ele conseguir superar os arrasa quarteirão de dois indicados poderosos eu aplaudo. E a música é muito boa.

 

A próxima postagem é a favorita dos compositores – Canção do Ano. E num período com boas músicas e letras simples, mas poderosas, a disputa de hits aqui será pontuada pelo efeito Paul Walker.

Quer saber o porquê? Confira no nosso próximo post!

 

 

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2 comentários sobre “Indicados ao Grammy 2016 [3] – Gravação do Ano

  1. Oi Marina! Tudo bem?
    Realmente, se houver uma vitória para Mark Ronson no Grammy 2016, esta com certeza será em Gravação do Ano. Não confio muito que ele leve Performance Pop por Duo ou Group pelo fato de See You Again – uma faixa que acho um pouco mais superior – estar concorrendo, enquanto Melhor Álbum Pop deverá ser um lock para Taylor ou para a Kelly, é difícil dizer.
    Já quanto a Canção do Ano, que é o tema do próximo post, eu apostaria que essa é a categoria mais difícil de se prever nos Grammys, uma vez que esse ano só tem compositor super-respeitado. Mas se perguntarem agora, diria que a vitória iria para Girl Crush ou Blank Space. Como disse, essa é a categoia mais difícil de se prever, mas acima de tudo, não vejo uma vitória para See You Again ou Thinking Out Loud. No máximo poderíamos nos surpreender com Alright…
    Enfim, fico na espera de seu próximo post!

    • Obrigada! O post de canção do ano está chegando, e realmente tudo pode acontecer. O que posso adiantar é que eu vejo esse Grammy muito mais disperso em vencedores do que concentrado em um ou dois nomes – o que pode ser bem legal pra gente que vai assistir.

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