Indicados ao Grammy 2016 [2] – Performance Pop Solo

Banner Performance Pop Solo 2016

A categoria de Melhor Performance Pop Solo é outra que surgiu após a monstruosa “enxugada” de 2011. Anteriormente, haviam três categorias que premiavam as performances, duas de gênero e uma de instrumental. Por isso, a Pop Solo trabalha com performances de artistas solo, não importando gênero ou se a performance é vocal ou não (daí a ausência do “vocal” ou “instrumental”).

A primeira vez em que houve premiação sob “nova direção” foi em 2012, quando Adele levou por “Someone Like You”. A britânica repetiu a dose no ano seguinte, com a versão live de “Set Fire to The Rain” (truqueirésima); em 2014 Lorde levou o prêmio para a Nova Zelândia com “Royals”, enquanto neste ano Pharrell e seu chapéu deixaram muitos narizes tortos levando o Grammy com “Happy” ao vivo (affe).

Pois bem, este ano, temos um espectro interessante de indicados – em sua maioria hits, e com a emergência de um act no segundo semestre, é o rival que pode dar trabalho ao até então inabalável favorito.

E tem a Kelly Clarkson também…

Kelly Clarkson, “Heartbeat Song”
Ellie Goulding, “Love Me Like You Do”
Ed Sheeran, “Thinking Out Loud”
Taylor Swift, “Blank Space”
The Weeknd, “Can’t Feel My Face”

Kelly Clarkson, “Heartbeat Song”

Você imaginava a Kelly no corte final? Nem eu nem boa parte dos jornalistas que se dedicam a analisar e prever os indicados ao Grammy tinham incluído a moça na lista, o que deve ter chocado muita gente fóruns pop afora quando o nome da Kelly entrou em duas categorias (a outra em que a cantora está indicada é Melhor Álbum Pop com o “Piece By Piece”.). Mas a pergunta que fica é – a música merecia chegar até aqui?

A resposta é: não. Apesar de gostar bastante da faixa (e, quando foi lançada, acreditar no sucesso da música), “Heartbeat Song” não tem o mesmo apelo, nem força, dos outros candidatos, nem o mesmo impacto cultural e nos charts – o que o Grammy valoriza bastante (o pico da música foi de #21). A interpretação da Kelly é sempre on point – uma das melhores vocalistas atuais, não há o que questionar o trabalho vocal dela nem o que ela pode fazer com a letra do single, que é bem eficiente – no entanto, a produção da faixa é um problema. Em comparação com as rivais, é a menos polida e bem trabalhada, e fazendo uma reavaliação da música (o que é sempre bacana porque a gente ouve as músicas muito com a primeira impressão de empolgação ou de desconfiança), não traz nada de novo dentro do jogo – nem pra própria Kelly, que já levou o prêmio de Melhor Performance Pop Feminina por “Since U Been Gone”, esta faixa uma game changer.

Mas então, por que o Grammy escolheu priorizar “Heartbeat Song” em detrimento de outras músicas que poderiam ter chance (oi Meghan Trainor)? Antiguidade é posto. Kelly Clarkson é visivelmente querida pela bancada – além dos três prêmios, ao todo a cantora teve 12 indicações – e é a única artista a ter duas vitórias em Melhor Álbum Pop (por “Breakaway” em 2006 e “Stronger” em 2013). Benquista pela Academia e ainda com indicações em outros fields (Kelly tem indicações no country) e com uma carreira sólida e já firmada entre o público adulto, Kelly tem mais “estofo” do que uma act mais nova na cena pop para conquistar uma indicação – mesmo que ninguém considere. Com a Kelly sempre foi assim – quando você menos espera, lá está a moça te surpreendendo.

(mas não acho que ganhe. Vou ficar chocada se levar.)

 

Ellie Goulding, “Love Me Like You Do”

Agora o jogo começa a ficar quente com um dos grandes sucessos do ano – “Love Me Like You Do”, parte da trilha sonora de “Cinquenta Tons de Cinza”, deve ter sido justamente o grande salto da Ellie Goulding de uma das garotas pop com um toque meio alternativo para uma estrela A-List da música. A música, uma midtempo pop com synths oitentistas e uma ambientação misteriosa, é a faixa mais “solar” das músicas da soundtrack, e o grande apelo pop levou a faixa à terceira posição no Hot 100, além de uma carreira bem sucedida em todo o mundo e indicações aos prêmios relacionados à trilha sonora nesta Awards Season.

“Love Me Like You Do”, que originalmente seria para Demi Lovato, ficou nas mãos da cantora certa. Ellie Goulding não é uma intérprete de excessos ou firulas – com sua voz pequena, firme e aguda, a britânica parece até frágil em sua interpretação, como se espelhasse as dúvidas e desejos da protagonista Anastasia Steele no filme. Ao mesmo tempo, sua voz consegue ter um pé no mainstream assim como numa certa não-comercialidade, o que a torna um elemento confortável e fácil de ser ouvido por vários grupos de pessoas.

Misturando uma boa produção que consegue ser atemporal – e transcender o filme onde está contida (e toca durante a exibição), com a interpretação interessante da Ellie, e o impacto forte nos charts (nos EUA, só não chegou ao #1 porque estava na “Uptown Funk” season), a música é uma candidata forte ao prêmio. Anteriormente, eu até a classificaria como um azarão simpático, mas hoje, com o boost ganho através das indicações ao Globo de Ouro e Critics’ Choice, não sei se é tão azarão assim. O primeiro rival ao favorito se apresenta com credenciais pesadas.

(mas eu queria tanto que esse praise a “Love me Like You Do” fosse pra “Earned It”…)

 

Ed Sheeran, “Thinking Out Loud”

Qual o poder de uma música “velha”? Não digo “velha” no sentido de tempo, mas “velha” dentro da ideia dos lançamentos dentro do período de elegibilidade. O fato é que muitas grandes canções conseguem prosseguir e levar o Grammy mesmo já não estando na memória imediata dos ouvintes casuais há um bom tempo. Mas apenas a força dessa canção – seja pelo impacto, ou pelo sucesso, ou pela indiscutível qualidade – pode fazer grandes estragos em premiações que parecem óbvias.

Talvez “Thinking Out Loud”, lançada há mais de um ano por Ed Sheeran (24 DE SETEMBRO DE 2014) não ganhe esse gramofone, mas é um outro rival notável do favorito ao Grammy. A música (que eu chamo carinhosamente de “hino dos casamentos”) é a grande highlight do álbum “X”, indicado ao Grammy deste ano, e além da produção orgânica, em que você consegue ouvir cada instrumento, cada detalhe, o acompanhamento da guitarra, o piano; ainda tem a letra simples, direta ao ponto, eficiente, com uma interpretação poderosa do ruivo – pela sinceridade como ele canta os versos, o timbre extremamente pop, mas com uma pegada meio soul que consegue atender a todos os públicos e todo o caráter atemporal da canção. É um pacote fechado e pronto para ser um clássico. E clássicos geralmente ganham força com o tempo, quando envelhecem.

Mas tempo é um problema para Ed Sheeran. Apesar do sucesso estrondoso da música (#2, atrás apenas de você-já-imagina-quem-seja), outras canções foram fazendo sucesso e “Thinking Out Loud” saindo lentamente dos charts – como geralmente uma música mais nova se sobrepõe à mais velha. Com outros sucessos mais recentes (e algumas faixas com impacto muito maior), uma música elegante e pungente lançada muito tempo antes e que chegou ao peak lá no início do ano se perde no meio do caminho – e perde a chance de ser premiada merecidamente com o Grammy. Por isso que, fazendo a gradação de favoritismo, o “hino dos casamentos” está um pouco abaixo na cotação.

(Ed Sheeran é um azarão simpático aqui)

 

Taylor Swift, “Blank Space”

O período de elegiblidade entre 2014-15 foi o tempo de Taylor Swift. Seja pelo lançamento do antigo recordista “1989” e todo o praise do álbum, seja pelas tretas com o Spotify ou o buzz em torno do Squad e do beef com Katy Perry; a moça esteve em todos os lugares, falou e foi falada, e num determinado momento, não se levou tão a sério em sua fase pop. Com o lançamento do escapista “Shake it Off” e do bem-humorado “Blank Space” – uma brincadeira com a visão que a mídia e o grande público tinham da Taylor como uma “devoradora de homens”.

“Blank Space”, indicado a Performance Pop Solo, não apenas é uma brincadeira com a imagem da Taylor – promovida pela composição inspirada em parceria com Max Martin e Shellback. A música é uma pérola pop, mas com o vocal da moça ainda característico e identificável (coisa que não havia no primeiro single), com aquele agudo final puxadinho pro country mas tudo bem pop e empacotado com synths e uma bateria marcadinha com leve inspiração oitentista – porque o “1989” foi concebido para ter essas referências dos anos 80, mas numa dimensão mais fluida do que um throwback puro sangue. Além da produção bacana e refinada, o vocal da Taylor consegue captar esse humor e ironia da letra, ao mesmo tempo em que a mesma produção consegue oferecer possibilidades bacanas para a voz não tão potente da moça – há agudo, há notas mais baixas, há trechos quase versados, a música é quase uma conversa ou uma viagem da cabeça dela, o que mostra que ela sabe conduzir a canção de acordo com o que a letra ou o feeling da música deixa transparecer. Nem todas as cantoras de vozeirão sabem fazer isso. Isso é inteligência pra cantar.

Favorita ao Grammy aqui desde o dia do lançamento (se bobear), “Blank Space” ainda está indicada a Canção e Gravação do Ano, merecidamente. Uma vitória em Pop Solo é óbvia e igualmente merecida – a música é sensacional e Taylor sabe como conduzir a canção. No entanto, a coisa não é tão lock aqui como eu pensei há alguns meses, já que “Love me Like You Do” vem com o peso das indicações em Canção Original na Awards Season de cinema e o principal rival da música vem diretamente do Canadá, com talvez a música que pode dar o pulo do gato em quem achava que tinha o Grammy na mão.

(ou a Taylor leva essa ou a moça pode se preparar para o seu momento “Daydream”)

 

The Weeknd, “Can’t Feel My Face”

O que “Thinking Out Loud” tem de antiga na memória imediata dos ouvintes casuais, essa música tem de fresca na cabeça das pessoas – e de todas as formas possíveis. A melodia disco-funk, mais puxada para os 80’s que os 70’s; a letra cheia de mensagens cifradas (é sobre uma relação problemática? é sobre cocaína?), The Weeknd emulando Michael Jackson com precisão absurda e um hit prontinho vindo do midas Max Martin. “Can’t Feel My Face” foi um hit inescapável do verão e tem toda uma cara de música que o Grammy adora premiar.

Vejamos: foi sucesso estrondoso? Sim, chegou à primeira posição e teve uma performance incrível na rádio e nos streams, além do chart digital. Impactou o mundo pop? Com certeza, foi o grande boom do Abel no mainstream, que já tinha começado aos pouquinhos com o featuring em “Love me Harder” e a música dele na trilha de “Cinquenta Tons de Cinza” (não nos esquecendo de que o canadense já tinha lançado três mixtapes e um álbum antes, o “Kiss Land”); sem contar com o fato de que a persona misteriosa e até creepy cultivada em torno do The Weeknd se abriu com o vídeo da música – e “Can’t Feel My Face” é a música mais “acessível” do repertório dele (tirando “Earned It”), um verdadeiro rompimento em relação a materiais antigos . A música é boa? Impecável, em termos de produção, melodia, refrão catchy as fuck e reiterando a performance vocal do The Weeknd, emulando seu Michael Jackson interior, mas sem perder a identidade (e ainda mantendo o ar misterioso e esquisito em torno de si dentro da canção). É um vocalista extremamente competente, que conseguiu manter as rédeas da sua música e não foi engolido pela produção.

O único problema de “Can’t Feel My Face” é realmente a concorrência. Se não fosse a Taylor Swift, eu já chamaria a música de lock fácil – já que entre as outras indicadas, foi a única a chegar ao topo e ter um impacto mais poderoso dentro da popsfera. No entanto, apesar de jovem, Taylor tem mais “estofo” e é bem vista pela Academia, do que um “novato” (com todas as aspas possíveis) que alcançou ontem o sucesso. Mas a música é tão boa, e a recepção a Abel foi tão positiva pela bancada (a julgar pelas sete indicações, incluindo Pop Solo) que não me surpreenderia que o espaço em branco do vencedor deste ano tenha o nome “Abel Tesfaye” escrito nele.

(boas músicas merecem ser premiadas)


 

CONCLUSÕES

Quem ganha: Até a segunda rodada de previsões eu apostava em “Blank Space”. Ainda aposto, mas sem muita confiança na vitória.

Quem deveria ganhar: Que pergunta sacana! “Blank Space” ou “Can’t Feel My Face”, o prêmio estará em boas mãos.

Quem será o “dark horse” da categoria: Ed Sheeran, que pode levar sua música antiga para as cabeças; ou “Love Me Like You Do”, se conseguir puxar o buzz de ser canção de trilha sonora para esta categoria.

 

O próximo post de indicados ao Grammy vai tratar de uma categoria do Big Four – onde quem manda são os grandes hits – mas sempre com uma surpresinha. É a de Gravação do Ano. Até lá!

 

 

 

 

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