Esquentando os tambores para o Grammy 2016 [6]

A música disco não foi apenas um gênero. Foi um movimento cultural, um estilo de vida influenciado pelos grupos marginalizados que se tornaram protagonistas após a revolução social dos anos 60. Mulheres, negros, homossexuais e latinos foram os grandes vetores para o desenvolvimento de um gênero que derivou do funk e do soul dos anos 60 para algo mais sincopado, constante, rápido e usando tanto do baixo (só que com menos groove e um padrão mais repetitivo) quanto da bateria eletrônica, sintetizadores, percussão de inspiração latina e mesmo orquestração.

Para além do crescimento das discotecas, da dominância da disco nas rádios e de artistas que não eram ligados ao gênero – e que pularam no barco de lurex e esferas espelhadas no final da década de 70 – a disco foi uma movimentação de estilo, com as roupas, com a liberdade sexual, com a liberdade na identidade das pessoas, com a autodescoberta e a individualidade características da década de 70 (sem contar com as drogas da moda, apropriadas para a noite que nunca terminava – a exemplo da cocaína e dos Quaaludes). No entanto, nem todo mundo estava curtindo a festa.

A “Disco Demolition Night” em 1979, quando vários LPs de disco foram destruídos no meio de um campo de baseball, incentivados por um disc-jóquei de Chicago, foi o auge da insatisfação que grupos ligados ao rock, deixado à margem na época, tinham contra a disco. Outros jornalistas e analistas musicais acreditaram que um dos motivos pelos quais a disco foi rejeitada por um grupo específico foi por haver um componente de racismo, sexismo e homofobia, já que os principais nomes do gênero e as manifestações culturais ligadas à disco eram as mulheres, os negros e latinos, e os homossexuais. Já outros teóricos afirmam que o estilo estava realmente saturado e o público queria outros gêneros de volta.

A questão é que o boicote acabou funcionando, já que no final daquele ano, os hits da disco passaram a rarear, e os artistas ligados ao gênero decaíram em popularidade.

E foi nesse cenário decadente que o Grammy decidiu criar uma nova categoria para a premiação – a Melhor Gravação de Disco, relativa ao ano de 1979, e premiada em 1980.

Too late to the party, folks.

Curiosamente, durante anos, vários indicados na categoria de R&B poderiam facilmente funcionar como prováveis indicados numa “Best Disco Recording”. Por que a Academia não percebeu mais cedo o potencial da categoria – o que poderia ter ajudado na sobrevivência da Disco durante o backlash está além da minha compreensão. Mas o que interessa é que os indicados naquele ano ao Grammy foram:

“Boogie Wonderland” – Earth, Wind & Fire
“I Will Survive” – Gloria Gaynor
Don’t Stop ‘til You Get Enough” – Michael Jackson
“Da Ya Think I’m Sexy?” – Jorge Be… ops, Rod Stewart
Dim All the Lights” – Donna Summer

Uma lista respeitável de grandes canções (ouvir especialmente a belíssima faixa da Donna). Mas o grande vencedor dessa categoria foi o clássico incomparável e icônico, hino atemporal e hit em todas as festas de família na hora em que começa a parte do “flashback”: “I Will Survive”, canção assinatura da Gloria Gaynor.

O problema foi que esse foi o primeiro e único ano em que a Disco foi premiada com um Grammy específico. Já que especificamente em 1980 a disco estava morta, a Academia achou que o gênero não merecia ser premiado, e extinguiu o award na premiação seguinte. Por isso, “I Will Survive” ficou com a primazia de ser a única ganhadora desse prêmio.

Gloria Gaynor

Gloria Gaynor Gloria Gaynor começou a carreira como cantora de R&B, mas alcançou a proeminência com o álbum “Never Can Say Goodbye”(1975), onde o primeiro lado do LP era uma sequência de três músicas (“Honey Bee”, “Never Can Say Goodbye” e”Reach Out, I’ll Be There”) sem parar, que foram mandadas às discotecas e fizeram da moça um hit nas pistas, quando a disco ainda crescia. “Never Can Say Goodbye”, aliás, chegou a ser indicada a Melhor Performance Feminina de R&B em 1976.

Os álbuns seguintes logo consolidaram Gloria como uma das grandes artistas da disco, e em 1978 quando “Love Tracks” foi lançado, havia uma faixa que se destacava das outras. A gravadora decidira lançar como lado A a música “Substitute” (geralmente o lado A era a música em que era percebido maior potencial), enquanto uma certa “I Will Survive” era o lado B. No entanto, foi o lado B quem superou o single oficial (já que os disc-jóqueis preferiam tocar ela ao invés de “Substitute”), se tornando a música mais famosa da cantora.

Com a backlash sofrida pela disco, os discos posteriores a “I Have A Right” (1978-79) tiveram pouquíssimo impacto nos charts, e a popularidade da artista caiu drasticamente. Gloria chegou a encontrar um leve comeback com a faixa “I Am What I Am”, do álbum “I Am Gloria Gaynor” (1984), mas a faixa se tornou mais conhecida fora dos EUA.

pra que essas pessoas no meio da apresentação?

Gloria Gaynor continua se apresentando por aí, ainda com seu repertório de Disco Diva, e ainda comandando todo mundo ao som de “I Will Survive”, que marcou gerações. Talvez o sucesso anterior nunca retorne, mas o seu nome e sua voz são inesquecíveis – e o hino de superação ainda é relatável a qualquer um, em qualquer momento da vida.


Agora é a sua vez: que gênero você acha que está saturado atualmente? Qual o estilo musical que você gostaria que retornasse? E que estilo você acredita que o Grammy vai premiar nas categorias principais (Canção, Gravação e Álbum do Ano)?


A próxima postagem do nosso esquema vai tratar de momentos surpreendentes, nonsense e curiosos dos Grammy anteriores. Você imagina quais foram os escolhidos? Não perca!

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