Esquentando os tambores para o Grammy 2016 [5]

Imprensa e público adoram um grande retorno. O famoso “comeback” que traz de volta à cena um artista cambaleante, que superou seja ostracismo, seja vício em drogas ou confusões pessoais, é a trajetória que todos adoramos acompanhar e torcer – e se o artista em questão conseguir prêmios e reconhecimento do Grammy, melhor ainda.

A indústria da música já viu vários retornos à música extremamente bem sucedidos. Já comentei no post anterior sobre o comeback da própria Natalie Cole; e um dos retornos mais conhecidos foi o de Mariah Carey com o “The Emancipation of Mimi” – que a tirou do ostracismo após uma década de sucesso e a apresentou a uma nova geração de ouvintes.

Mas o blog vai destacar hoje dois retornos especiais para o mundo da música – que tiveram consequências bem distintas…

Marvin Gaye

marvin-gaye O “príncipe da Motown” e um dos artistas mais influentes de todos os tempos, Marvin Gaye começou a carreira com canções R&B com apelo pop leves e crossover e ar de galã. Os duetos com Tammi Terrell se tornaram clássicos (“Ain’t No Mountain High Enough”, alguém?) e ele se tornou um dos nomes mais conhecidos da gravadora do Berry Gordy.

No entanto, os anos 70 trouxeram uma maturidade artística a Marvin – além da liberdade de trabalhar num material mais pessoal (longe da pressão trazida pelo mandachuva da Motown) que lançou álbuns icônicos como “What’s Going On”, que trouxe questões políticas e ecológicas à cena; “Let’s Get It On”, trilha sonora das transas de 10 entre 10 casais por aí; além de “Here, My Dear”, álbum-revelação do casamento de Gaye com Anna Gordy, irmã de Berry. Na esteira do sucesso, veio o vício em cocaína que foi um dos responsáveis pela derrocada de sua carreira (contando com as brigas com a Motown) – e que culminou talvez de forma indireta no seu fim.

Em 1981, fugindo dos impostos, Marvin foi viver na Bélgica, onde deixou as drogas e tentou mudar de vida. Considerado o período mais tranquilo na vida do artista, foi lá que surgiu a ideia para seu maior sucesso, o hit das transas “Sexual Healing” (uma das minhas músicas preferidas).

Essa música soa moderna em 1982 (ano de lançamento) e soa moderna hoje em dia. A produção equilibrada, suave, com os sintetizadores levemente circulando por toda a música, mas sem soar datada ou agressiva, o ritmo sincopado e a interpretação quase falada em alguns momentos, misturando sussurros e agudinhos, quase falsetinhos, que funcionam ontem e hoje, e esse baixo que não é tão groovado quanto em produções R&B/soul de anos anteriores (ouça “Never Too Much” do Luther Vandross pra comparar), e prova novamente a genialidade do Marvin em fazer música boa, atualizada, que colocou (e coloca) todo mundo pra dançar, mas sem perder a identidade dele. Seja de grande cantor, seja de grande pegador.

Evidentemente, o retorno de um dos nomes mais queridos da música não ficaria despercebido para a bancada do Grammy, que promoveu um dos momentos mais importantes de todos os tempos da premiação, com a apresentação do Marvin no award de 1983.


(tá sentindo um cheiro no ar? é o cheiro do sexo que emana só de você olhar essa apresentação)

Ele levou o Grammy de Melhor Performance Masculina de R&B, ganhando de Stevie Wonder com “Do I Do” (uma faixa post-disco/R&B que é bem a cara da época); “Forever, For Always, For Love”, do seu amigo Luther Vandross; Ray Parker Jr. (aquele mesmo do Ghostbusters) com “The Other Woman” – que música deliciosa, aliás; e George Benson com “Turn Your Love Around” (mais uma faixa bem a cara do início dos anos 80,hit no Antena 1)

(aliás, num mundo alternativo, se não houvesse “Sexual Healing”, eu daria empate técnico entre “Turn Your Love Around” e “The Other Woman”. Aliás, que lista brilhante de indicados, nossa)


(eu nem sei por onde começar)

A esteira de sucesso de Gaye não durou muito tempo – a turnê promovida pelo astro com as músicas do último álbum “Midnight Love” foi movida novamente à cocaína e problemas de saúde, e logo depois ele voltou à casa dos pais, onde em primeiro de abril de 1984, Marvin morreu com um tiro dado pelo próprio pai, após uma briga entre os pais em torno de questões financeiras. Alguns dizem até mesmo que foi o próprio cantor quem impulsionou o pai (também chamado Marvin) a atirar nele, já que nos últimos meses de vida, ele vinha pensando em suicídio.

A morte de Gaye não diminuiu a admiração e a inspiração que artistas contemporâneos e posteriores a ele tinham e tiveram. Até hoje, suas músicas são sinônimo de elegância, classe e sensualidade, e não dá pra negar a sua força e o legado sentimental em ouvintes casuais e fãs de todas as idades.

A gente entende, Robin Thicke…


 

Tina Turner

??????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????? A Acid Queen era a parte mais famosa da dupla Ike e Tina Turner, que estourou nos anos 60 com hits como “A Fool in Love” e “River Deep Mountain High”, e uma pegada mais R&B, mas com shows ao vivo energéticos e cheios de ritmo. Tina era a grande voz, a força motriz, as pernas legendárias e o ar de rainha; enquanto Ike era o músico, produtor e gênio por trás do palco.

No entanto, o casamento que parecia ideal no palco era um inferno em casa. Tina (nascida Anna Mae Bullock) era espancada e violentada por Ike, que aumentava sua violência e série de humilhações à medida em que o consumo de cocaína e as egotrips aumentavam; e logo nem o duo nem o casamento aguentaram – e Tina se separou de Ike, deixando tudo e ficando apenas com o nome.

O final dos anos 70 foi problemático para a cantora, que passou a fazer turnês em hotéis e lançando álbuns de pouca expressão. Mas no início da década seguinte, tudo mudou: após mudar de empresário (o mesmo de Olivia Newton John), Tina Turner nasceu novamente, desta vez como uma artista de rock ‘n roll e com um material mais atualizado para as suas novas pretensões. E daí nasceu uma estrela explosiva, que se provou um dos retornos mais bem-sucedidos da história da música.


(who needs a heart when a heart can be broken?)

Pois imagine só: a cultura pop, atualmente, valoriza a juventude de forma obsessiva. Na época de Tina – que voltara à cena com 45 anos – juventude era ouro, mas ainda havia espaço para cantoras mais velhas. Mesmo assim, ela era “datada” e “antiga” demais para a fome dos jovens (o Ike & Tina era um act que começou a decair ainda no meio dos anos 70, quando muitos desses adolescentes eram crianças), que estavam entre a doidinha Cyndi Lauper e a material girl Madonna. Com uma pegada rock, atitude durona e postura de rainha no palco, sem contar um um material que funcionava (e ainda funciona) muito bem para todos os públicos, a verdade foi que as pessoas precisavam de Tina Turner, sem que elas soubessem – elas precisavam ver uma mulher adulta em pleno controle de sua vida, de suas emoções, de suas paixões, e livre para cantar e se comportar da forma como quisesse.

O álbum “Private Dancer” vendeu milhões de cópias e rendeu vários hits e indicações ao Grammy. Vencedor de quatro gramofones (incluindo Melhor Performance Pop Feminina, Canção e Gravação do Ano por “What’s Love Got To Do With It”, Melhor Performance de Rock Feminina por “Better Be Good To Me”), ainda legou à história da premiação outra performance respeitável, realizada pela Rainha do Rock.


(esse final, com ela subindo as escadas bossy imperatriz do mundo dá vontade de aplaudir de pé aqui em casa)

Hora de conferir alguns dos vídeos com a entrega dos prêmios:


(aqui é a Tina levando Gravação do Ano com o produtor Terry Britten. Alguns dos indicados naquele ano eram Cyndi Lauper com a clássica “Girls Just Wanna Have Fun” e Bruce Springsteen – que estava num bom ano também – com “Dancing in The Dark)


(este é o prêmio de Canção do ano, ganho pelos compositores da música, Graham Lyle e Terry Britten. É um dos casos em que a música não foi composta pelo intérprete, mas praticamente o registro da vida do cantor)
(aliás, que seleção maravilhosa de indicados)

Tina, que já tinha um Grammy ainda como parte do duo com o nefasto marido (1972, por “Proud Mary”), ainda conseguiu outras indicações e mais Grammy, com “One Of A Living” (da trilha sonora de “Mad Max Além da Cúpula do Trovão”), que levou o prêmio de Melhor Performance Feminina de Rock em 1986; “Back Where You Started”, também vencedora do mesmo prêmio em 1987; e “Tina Live in Europe”, em 1989. Eu disse Rainha do Rock?

A estrela prosseguiu com uma carreira bem sucedida nos álbuns posteriores, continuando como uma grande influência para uma nova geração de artistas, influenciadas por sua presença cênica, a voz forte e rasgada e o repertório rock – além das incursões bem-sucedidas no cinema – como o já citado filme do Mad Max (que gerou essa capa sensacional da Rolling Stone que era até minha foto de perfil no Orkut anos atrás. “We Don’t Need Another Hero” na veia!). Atualmente aposentada e morando na Suíça, Tina Turner foi um exemplo importante – como mulher, artista, personalidade – de que a idade não é demérito para recomeçar uma carreira na música; de força para sair de um relacionamento abusivo e reconstruir a própria vida; e de continuar sendo uma inspiração para mulheres, na música e fora dela.


E você? Tem algum retorno esperado para os próximos prêmios Grammy? Acha que tem algum artista pop por aí que merece um comeback histórico como o visto neste post? 


Não perca o próximo post do nosso esquenta: vamos contar a história de uma categoria do Grammy que só teve um vencedor. Quais são suas apostas?

 

 

 

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2 comentários sobre “Esquentando os tambores para o Grammy 2016 [5]

  1. Oi Marina!
    Estou adorando estes poste pré-Grammy! Devo dizer que realmente adoro um comeback. O comeback de Madonna em 1998 com Ray of Light (que tinha lançado álbuns muito sem força naquela década ) e o de Mariah em 2005.
    Acho que um comeback merecido é o de Christina Aguilera, que não faz um bom álbum desde 2006, com Back to Básico, e Fergie, que lançou um debutantes incrível naquele mesmo ano e nunca mais apareceu em grande estilo.
    Parabéns pelo blog e muito sucesso!

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