Uma jornada de amadurecimento com Adele e o 25

adele-25-coverQuando fiz a resenha de “Hello”, o já recordista lead single do álbum da Adele vazado nesta quarta-feira, tinha introduzido o post com uma pequena história tratando da trajetória da minha relação com a britânica, começando com o “19”, e encerrando com a sensação de que finalmente a minha maturidade emocional estava no mesmo ponto onde a Adele começou a produzir esse álbum.  A ideia de nostalgia, de entrar em contato com a sua idade adulta, de compreender os erros do passado e seguir em frente.

A audição inicial do “25” foi mais marcada pela empolgação em ouvir o material novo da Adele – quatro anos depois, ela está de volta! – mas o que, acredito eu, ela quis propor nesse álbum eu só senti mesmo na segunda ouvida, voltando pra casa após o trabalho, quando as faixas começaram a calar fundo. E eu, que não sou exatamente um poço de emoções, me senti especialmente movida com o CD.

Essa identificação, essa sensação de conexão emocional que temos com as músicas da Adele, é o grande charme dela. As melodias e as produções não são revolucionárias, não vão mudar a história do pop – e nem é essa a proposta. O trabalho da Adele é focado nessa simbiose entre letra e melodia, mas principalmente em como as músicas, que são parte de sua história, conseguem influenciar tantas pessoas. É nessa simplicidade – traduzida no caráter acústico e confessional do “19”, na força e fragilidade através do peso das baterias, das batidas do “21”; e agora com a organicidade do “25” – que a gente vê o diferencial da Adele. Porque mesmo que a gente não tenha passado pelas mesmas situações que a britânica, nós sentimos algo diferente. Ficamos na bad, rimos, sentimos saudade; como se o diário das nossas emoções fosse traduzido em versos e refrões pela moça.

E a palavra do dia aqui é: MATURIDADE.

O álbum começa com “Hello”, o poderoso primeiro single que, após ouvir o álbum todo, funciona como uma transição dos temas do “21” para o “25”. Mas aqui, trata-se de uma Adele que decide ensaiar uma reaproximação para pedir desculpas, aparar as arestas, após muito tempo de ausência. Mas não como um retorno ao estado das coisas de antes, e sim para fechar aquele ciclo e seguir em frente, talvez. Co-composta e produzida pelo Greg Kurstin, tem uma força absurda na orquestração, mesmo com a letra simples e conversada.

(importante falar dos compositores e produtores aqui porque a Adele trabalhou com bastante gente e não foi engolida por alguns deles, o que é sinal de uma maturidade artística e confiança no próprio taco)

Acho que “Send My Love (To Your New Lover)” fecha o capítulo “21” de uma vez né? Adele aqui fala pro ex que já passou, já foi, manda um beijo meu pra sua nova namorada; mas o negócio não é bem assim – porque em alguns momentos ela mostra que, após o fim da relação, foi ela quem conseguiu dar a volta por cima e estar bem melhor que ele – enquanto o rapaz não parece estar vivendo um dos melhores momentos. Quer melhor coisa que reencontrar o ex que ferrou sua vida e descobrir que você está bem melhor que a pessoa? Schadenfreude deliciosa!

Essa faixa, produzida pelo Max Martin, era uma coisa meio divisiva pra mim – achei a prévia esquisitíssima – mas quando ouvi toda, achei divertidíssima e agradabilíssima de ouvir. A interpretação sassy, mais focada no uso da voz que os agudos – que serão usados em plena força durante o álbum – é ótima, e a música tem cara de single fácil. Com o sueco e seu toque de Midas, não tem como errar (quer dizer, exceto se você for “Focus”…)

Mas como o capítulo “21” foi fechado, é hora de desenvolver novas emoções e se descobrir – e talvez ir um pouco mais longe, como mostra “I Miss You”, com uma Adele cantando sobre sexo com um eco extremamente etéreo, coros ao fundo e batidas bem sinuosas, além de metáforas simples mas matadoras (quem haveria de imaginar Adele cantando “Treat me soft but touch me cruel”?). Eu adoro as batidas dessa música, e a faixa – que tem mais de cinco minutos – parece passar rapidamente.

(queria mais Paul Epworth nesse álbum, mas a gama de produtores envolvidos compensa essa necessidade com trabalhos incríveis)

Essa autodescoberta da Adele prossegue em “When We Were Young”, uma das highlights do álbum. Já sabíamos da versão ao vivo desde a terça-feira, mas o trabalho em estúdio é brilhante. A pegada baladinha setentista está bem mais evidente, e a letra, em que ela parece estar cantando numa perspectiva de anos depois, relembrando um amor do passado, pode se referir a qualquer coisa na nossa vida, desde amizades, um lugar querido ou até a nossa vida. Outra faixa desse álbum trata disso mais diretamente, mas aqui, a letra (co-escrita por Tobias Jesso Jr.), juntando com a produção elegante (de Ariel Rechtshaid) e toda a nostalgia na inspiração para a faixa fazem com que a bad bata forte aqui nesse ponto do álbum. Aí você vai lembrando do que deixou pra trás (de quem deixou pra trás), não importa a época ou a idade, e procura um cantinho pra se esconder do mundo e chorar.

Outra faixa que eu fiquei com medo quando vi na tracklist foi “Remedy“. Ryan Tedder é meio hit or miss, ou ele faz algo ótimo ou faz algo medíocre, mas como “Rumor Has It” do “21” é ótima eu decidi dar uma chance. E não me arrependi. Após a nostalgia melancólica da faixa anterior, Adele e um piano fazem um trabalho lindo e mais alegre com a música em que visivelmente a inspiração é o filho Angelo. A música continua a série de faixas com produção leve, provando uma coesão admirável no álbum (“I Miss You” é a exceção entre essas faixas, mas mesmo com uma produção com mais camadas, não afeta em nada a audição).

Quando falo em produções com mais peso, eu falo das faixas seguintes, “Water Under The Bridge”, “River Lea” e “Love in The Dark”. A primeira é realmente grower – eu tinha achando filler na primeira audição, apenas bacana na segunda e agora estou achando ótima. Uma “chamada” da Adele na pessoa amada sobre a relação deles – você me ama mesmo? e eu te amo também, hora de assumir logo! – tem uma produção com mais peso em baterias, mais camadas de voz e coro e um pouco mais de grandiosidade. Cortesia de um Greg Kurstin menos “orquestrado” que em “Hello”.

Já em “River Lea“, com produção de Danger Mouse, Adele presta homenagem à sua origem, ao lar da sua infância, mostrando que seu comportamento está intrinsecamente relacionado aos lugares onde ela cresceu, que exerceram influência em sua personalidade. Quem nunca disse que “foi morando no bairro X que desenvolvi quem eu sou, formei meus amigos”(Eu, particularmente, não tenho essa referência por ter me mudado algumas vezes na infância)? Outra faixa extremamente grower, ela me dá sensações meio desconexas porque talvez seja a música com a qual eu menos me identifique, mas é uma ótima canção e mantém essa lógica de produções com mais “peso”, mas sem ser over.

Love in The Dark” é um pouco menos “produzida” que as músicas anteriores, mas tem uma certa grandiosidade que colabora para a transição melódica para a próxima faixa. Co-escrita com Samuel Dixon (colaborador da Sia – elas chegaram a gravar algumas músicas para o “25”, aliás), eu particularmente adoro a letra. Nessa jornada de autodescoberta e aceitação, é ter uma maturidade emocional muito grande para pedir a alguém que te ama que se vá. Ninguém merece viver uma relação em que apenas um se doa, e Adele já compôs a futura música de indiretas de fim de relacionamento para os próximos anos. O pequeno solo de violino é marcante.

Mas talvez a coisa mais difícil desse álbum é tentar passar invicto por “Million Years Ago“. Seguramente a melhor colaboração da Adele com Greg Kurstin, a balada ao violão é cortante, pungente, triste, melancólica, a bad das bads; não dá pra não pensar em si mesmo com 17, 18 anos, pensando que o mundo está aos seus pés, que você terá tudo, que sua vida será incrível; mas ver que chegou aos 25 e não conseguiu ou não alcançou nem um por cento do que esperava. É dolorido e não é pra qualquer um entender isso. Como Adele consegue fazer isso com a gente, é um mistério. Ou talento.

E se você conseguiu chegar invicto pela faixa anterior, melhor se preparar para “All I Ask“. Se você teve alguém na sua vida – ou tem alguém – e sabe que chegou o fim, mas quer levar algo desse momento, a mão de mandar pro love os versos chega a tremer né? Talvez o trabalho vocal da Adele mais desafiador, cortesia do Bruno Mars (um dos compositores da faixa), é uma balada ao piano com uma pegada meio noventista que tem uma mudança na nota que vai separar cantores de calouros em vários realities musicais por aí. A composição é mais simples e direta ao ponto que outras faixas do álbum, e igualmente relatável a qualquer um, em qualquer época da vida.

Adele conseguiu terminar esse CD cheio de ups and downs emocionais com uma espécie de ode positiva com “Sweetest Devotion“. Com uma coisa meio pop e uns ecos meio country e esse refrão nascido pra ser cantado em arenas, a faixa (produzida pelo Paul Epworth, outra ótima contribuição), parece outra homenagem ao filho Angelo, mas ao mesmo tempo parece dedicada ao love, e mostra uma Adele que finalmente descobriu ser amada e o amor pleno, após uma caminhada de crescimento que não durou apenas o tempo deste álbum, e sim entre o “21” e o “25” (ou talvez durante o percurso de uma vida?).


A jornada ainda continua. Amadurecer não é um processo que termina assim que você se vê adulta. Emocionalmente, você pode se ver pronto para o trabalho, ou para as amizades; mas nas relações amorosas você não tem a mesma inteligência emocional – assim como o contrário pode acontecer. Mas há uma idade em que não podemos voltar para trás e tentar refazer os nossos passos, para que eles sejam fáceis hoje – podemos olhar para trás e simplesmente olhar com pesar, nostalgia ou saudade (“When We Were Young”, “Million Years Ago”); ou tentar usar o passado para aprender com ele e seguir em frente. Seja para aparar as arestas de relações fracassadas (“Hello”) ou para realmente colocar uma pedra num assunto mal resolvido (“Send My Love”); e a partir daí ensaiar novas relações (“Remedy”, “Sweetest Devotion”).

Ao mesmo tempo, a idade adulta traz um senso de que a gente pode lidar com os nossos sentimentos de uma forma diferente. A casca adquirida pelos relacionamentos anteriores pode ser o catalisador pra gente não deixar que nossas dúvidas tirem a possibilidade de viver um sentimento pleno (“Water Under The Bridge”); e aprender a respeitar os sentimentos dos outros, para que a gente não faça com os outros o que um dia fizeram conosco. Ter a tranquilidade de entender o fim (“Love in The Dark”), mas novamente ter algo pra se recordar do passado (“All I Ask”), porque se não podemos esquecer o passado nem consertá-lo, ele ainda está lá e pelo menos a lembrança pode ser boa, ou construtiva (“River Lea”). Até mesmo estar livre para novas descobertas, estar aberta a novas emoções, a outros desafios (“I Miss You”).

A jornada pela vida adulta da Adele é um pouco a nossa jornada. A britânica nos coloca em frente a um espelho, como quem quer mostrar através de suas músicas que a nossa vida pode estar naquele ponto, que um dia nossos sentimentos estavam na mesma situação que o dela; e a habilidade dela em escrever numa perspectiva de alguém daqui a muitos anos faz com que o caráter de cada música seja atemporal, e atraia pessoas de todas as idades.

Não dá pra dizer que é melhor ou pior que o “21”. São álbuns diferentes, com propostas e vivências diferentes. As músicas não lembram umas às outras. Artisticamente falando, o “25” é a Adele conseguindo se renovar dentro do próprio estilo – trabalhando com produtores um pouco diferentes daqueles com os quais ela compôs nos dois álbuns anteriores, a cantora/compositora manteve as suas baladas, as pops mais up mas dentro dessa lógica mais universal da Adele, com todas as faixas igualmente boas mas sem aquela pegada extremamente radiofriendly. Os refrões, alguns repetitivos, outros mais difíceis de captar (especialmente quando a Adele usa suas notas altas, eu sinceramente não sei como a gente vai cantar junto com ela sem ficar rouco haha), estão em coesão com o resto da música. Até “Send My Love”, tão divisiva, está equilibrada dentro da tracklist.

O fato é que ouviremos muito as músicas do “25” nos próximos meses, pela óbvia exposição da Adele e do sucesso estrondoso do álbum. No entanto, nos próximos anos, continuaremos ouvindo porque elas terão um espacinho no nosso coração.

You sound like a song /My God this reminds me / Of when we were young

 

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