Pedido de desculpas: Justin Bieber – Purpose

Cover CD Justin Bieber PurposeO caminho para o crescimento diante dos tabloides, dos fotógrafos, das fãs, dos empresários e da gravadora nunca é fácil para um artista adolescente. Ceder à pressão acaba sendo o caminho mais fácil, especialmente quando você está no topo do jogo.

Justin Bieber surgiu como um astro teen de rosto infantil, ar andrógino, voz aguda e músicas pop com traços R&B para encantar as fãs pré-adolescentes que o idolatravam de forma quase obsessiva. O rapaz cresceu, a voz encorpou e com o “Believe”, segundo álbum após o “My World”, Bieber mostrou versatilidade, e parecia pronto para encontrar um caminho até um público crossover, mesmo que o hate fosse alto (mas todo artista que polariza emoções tem grande hate). No entanto, o sucesso (e a pressão) subiu à cabeça do jovem, que passou a ficar conhecido pelas confusões, farras, bebedeira e prisão do que por música.

Até mesmo o terceiro álbum, “Journals”, um esforço bem mais puxado pro urban R&B, acabou sendo lançado no meio dessa confusão, ainda nessa busca do Bieber para ser visto como um rapaz crescido e maduro (enfim, pelas atitudes fora da música, não passou uma coisa nem outra).

Agora, é hora do canadense se provar mais uma vez – e mostrar para o grande público que sim, cresceu e pode ser consumido por um público mais velho – para além das fiéis Beliebers – com o “Purpose”, vazado nesta quarta-feira, dois dias antes do lançamento oficial, carregado por uma era extremamente bem sucedida (um #1 com “What Do You Mean” e um debut em #2 com “Sorry”, atrás apenas do furacão Adele; esta semana a faixa ficou na quarta posição na Billboard) e algumas polêmicas do rapaz.

Será que musicalmente falando, Bieber pode dizer que chegou à idade adulta? Confira no track-by-track!

(obs: as faixas resenhadas foram da standard edition)

“Mark My Words” – a intro do álbum é realmente uma introdução ao CD, com uma ambientação meio melancólica meio esperançosa, em que o Bieber tenta mostrar que apesar de tudo que você já ouviu falar dele, ainda há algo a mais que você não conheceu. Tem uma coisa R&B acústica pairando no ar.

“I’ll Show You” – com produção de Skrillex, continua liricamente falando, os temas da primeira faixa – como se desse continuidade à necessidade do Bieber em dizer às pessoas que ele também é humano, às vezes é difícil não sucumbir à pressão. Outra canção puxada pro urban, foi single promo do álbum. Uma boa música, apesar da autoindulgência.

“What Do You Mean?” – o primeiro single do álbum, muda o clima do CD pra algo mais tropical/EDM. Eu não sou a maior fã da música (parece uma versão piorada da tenebrosa “Cheerleader”, e ainda pra entrar na modinha do momento; além de parecer faixa de DJ em que ele pôs apenas a voz), mas a faixa foi hit e realmente tem cara de música do verão, combinando bem com o vocal do rapaz.

“Sorry” – segundo single do “Purpose”, continua na mesma vibe tropical eletrônico da faixa anterior. Ainda parece faixa de DJ em que o Bieber pôs apenas a voz, mas a música cresce mais em mim que WDYM, curiosamente. A letra me parece mais desenvolvida, com referências interessantes, ao meu ver, da relação entre o rapaz e sua ex, Selena Gomez. Pela visão dele (e a julgar por algumas músicas do “Revival”, que espelham aqui), o relacionamento deve ter sido bem tempestuoso – e o Bieber sabe bem que ele tem muita culpa no cartório.

“Love Yourself” – Bieber muda o tom e o ritmo com essa faixa, composta em parceria com Ed Sheeran, e que parece muito uma faixa do Ed Sheeran – e com o Bieber cantando no jeitinho do britânico. A música, aliás, é ótima – a letra é meio canalhinha sobre o Bieber aconselhando uma ex egoísta e meio sinis a cuidar mais de si mesma que ele já a superou. O problema, curiosamente, é que parece uma música do Ed Sheeran dada pro Bieber, e não uma música do canadense que o ruivo trabalhou junto.

“Company” – essa midtempo delicinha com uma levada R&B e algo meio vintage 80’s deve ser uma das músicas mais legais do álbum. Tudo funciona bem aqui: a letra simples e eficiente, o vocal gostoso do Bieber on point e esse break bacaninha que me lembrou vagamente “Jealous”. Acho que foi por isso que eu gostei da música. Mas aqui sim tem o DNA do Bieber, ao invés de mero copy+paste do som de outro artista.

“No Pressure” (featuring Big Sean) – uma midtempo mais R&B com a participação de Big Sean, parece outra música inspirada na relação de Bieber com Selena, em que após o fim do relacionamento, ele afirma que pretende dar espaço para que ela pense bem nos dois – e talvez voltar pra ele. Olha, pelo que eu tô vendo, meu filho, acho que ela não tem mais interesse não (e a julgar pelas entrevistas do Bieber, Selena é tópico comum). O rap do Big Sean é bem vindo, com referências curiosas a Street Fighter e Empire.

“No Sense” (featuring Travis Scott) – outra colaboração, desta vez com o rapper da vez Travis Scott, é mais uma faixa midtempo, desta vez com uma pegada mais urban/R&B. Também penso ser inspirada no namoro entre Justin e Selena, com o canadense dizendo que nada faz sentido sem a presença de sua amada. É um pouco menos interessante que a faixa anterior, e o rap aqui não adiciona muita coisa.

“The Feeling” (featuring Halsey) – já a colaboração com a sensação indie pop Halsey é uma das highlights do álbum. A faixa é literalmente um dueto, já que mesmo nos primeiros versos você consegue ouvir a voz da moça ao fundo, ecoando junto à do Bieber; e a transição do refrão, começando com ele, mas com ela tomando o lead, é ótima. Um encontro bem feito entre os dois artistas numa música novamente com letra bem efetiva e que tem chance de ser single. Gostei muito mesmo.

“Life Is Worth Living” – Bieber entra no território dos downtempos piano based com essa faixa que trata de sua trajetória e seus problemas. Eu acho que ele já resolveu bem essa autoindulgência lá atrás na tracklist, era desnecessária mais uma música falando sobre o assunto, e uma tão primária. Pra você colocar uma faixa no piano num álbum, a música precisa de algo a mais, um boom, uma explosão, algo que tenha variedade enquanto você ouve, senão fica parecendo mais uma música no piano.

“Where Are Ü Now” (with Skrillex and Diplo) – a opção de colocar a faixa que foi o “comeback” do Justin após um período conhecido apenas pelas polêmicas nos tabloides foi inteligente. Mesmo eletrônica demais para o resto do álbum, que flui surpreendentemente orgânico e coeso, a música funciona dentro da tracklist, também liricamente falando.

“Children” – continuando a seguir o rumo mais eletrônico do álbum, a faixa parte para uma vibe “humanitária”, com Bieber pedindo para que olhemos para aqueles que mais precisam (as crianças) e tomemos uma posição como os jovens do presente. Achei a inclusão da música no corte final bem deslocada e wtf. Tipo, o que isso tem a ver com todo o tema do resto do álbum? No limite entre parecer que se importa e o oportunismo.

“Purpose” – fechando a versão standard do álbum, a faixa-título é outra música no piano, mas com melhores resultados que LIWL. Aqui, Bieber literalmente fecha o trabalho unindo os pontos abertos lá na primeira faixa, pedindo perdão e compreensão, porque ele está aprendendo com seus erros e é um ser humano. A música termina com um depoimento do Bieber ao som da melodia ao piano da música. Um final mais otimista pro álbum, mas um pouco incoerente quando o rapaz ainda repete as mesmas atitudes arrogantes depois de pedir “perdão” o álbum inteiro.

Pedir desculpas pelos erros cometidos e assumir as bobagens é uma atitude adulta. Rever os próprios conceitos e se avaliar num relacionamento é uma atitude adulta. Nesse aspecto, os temas que giram em “Purpose” mostram um Justin Bieber consciente de que ele cometeu diversos erros, seja por imaturidade, seja por ego. Apesar de em alguns momentos, ele começar a culpar muita gente, menos a ele (“I’ll Show You”) ao mesmo tempo em que cede à autoindulgência, acredito que na esfera musical, Bieber pode dizer a si mesmo que mostrou um trabalho mais em consonância com seu atual momento na carreira, na busca de ampliar seu público.

Passando pelo pop/R&B, algumas influências urban e eletrônico – tanto algo mais tradicional quanto a vertente tropical – ele conseguiu conceber um álbum que flui de forma coesa e agradável mesmo com tantos ritmos juntos. Não consegue ser caótico, mesmo com as ilhas sonoras de estilos diferentes; pelo contrário, é uma audição tranquila e sem exageros, com o vocal do Bieber bem colocado em todas as faixas, provando que, como intérprete, ele evoluiu muito.

Uma evolução artística, ajudada com boas colaborações e bons produtores (Diplo, Skrillex, Benny Blanco), que infelizmente parece não encontrar eco na realidade. Mesmo com repetidas entrevistas em que Bieber reitera ser um bom rapaz, não adianta nada pedir perdão pelos erros e dizer que “está mudando” se continua com ataques de estrelismo ( como o dia em que ele abandonou uma entrevista de rádio; como a história da cadeira derrubada num restaurante por causa dos fãs, que o acompanhavam e tiravam fotos dele) e má vontade (saindo de shows que mal começaram e reclamando que a plateia estava aplaudindo da “forma errada” ao som da música dele). Não faz sentido você vender que “mudou” em seu álbum se fora dele continua com as mesmas atitudes.

É hora de viver o que você canta, Justin…

Isso não é uma atitude adulta. Nem pensar.

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2 comentários sobre “Pedido de desculpas: Justin Bieber – Purpose

  1. Oi Marina!
    Adoro o seu blog e amo o seu jeito de falar sobre a música pop as claras e com as palavras certas, certamente vendendo a sua opinião para o leitor, mas sem tentar enfiar nada na cabeça delas. Acho isso incrível.
    Ouvi o Purpose e, certamente, o álbum é muito bom mesmo! Digamos que esteja no meu top 10 do ano, e pra alguém que era foi hater do Justin Bieber até os doze/treze, já é muita coisa. As vezes realmente compro essa ideia de ele está arrependido do que fez no passado, mas isso não adianta de muita coisa já que ele continua fazendo as mesmas coisas…
    Esperemos o melhor.
    E mais uma vez, parabéns pelo blog!

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