A transição inteligente de Selena Gomez em “Revival”

Cover CD Selena Gomez Revival Selena Gomez não é a melhor cantora a surgir da Disney. Com um vocal limitado e sem a potência de sua amiga Demi Lovato ou mesmo Miley Cyrus, seus álbuns anteriores junto com a banda The Scene sempre tiveram como base o dance-pop, com faixas que funcionavam bem com a voz da jovem. Trabalhos sólidos, mas ainda com aquela marca de “estrela Disney”. A transição para artista adulta começou aos poucos, com o primeiro álbum solo, “Stars Dance”, um esforço pop/dance/EDM um tanto irregular, que apesar de feito de forma inteligente, mostrando as facetas mais maduras da Selena e um pouco de sensualidade, soou datado – especialmente quando a Miley 2.0 explodiu com “Bangerz”.

Um namoro conturbado com Justin Bieber e uma série de fofocas de tabloides, além de uma carreira ainda em ascensão no cinema de alguma forma dividiram as atenções da Selena, mas a troca de gravadora e um tempo longe dos holofotes, cuidando da saúde (ela tem lúpus e passou por um tratamento) deu um senso interessante à jovem. Agora contratada pela Interscope e com mais liberdade criativa, Selena decidiu continuar a transição para artista adulta de uma forma diferente de suas peers da Disney. Enquanto Miley associou sua imagem com controvérsias, aliando as polêmicas à música (ou seja, não expondo A e cantando B) e conseguiu se desvencilhar da imagem de “estrela teen” com sucesso; e Demi ainda tateia sua imagem adulta mesmo com músicas ainda meio adolescentes; Selena segue um caminho muito particular (e inteligente) com seu novo álbum, “Revival” – ela pretende expor os dilemas de uma jovem mulher crescendo em meio a relacionamentos complicados e tentando superar os problemas que a vida apresenta. Como qualquer outra pessoa de 23 anos.

Mais detalhes no faixa-a-faixa a seguir:

“Revival” – se você já sentiu o minimalismo de Good For You como uma surpresa do que você já conhecia da Selena, aqui é uma revelação. Com batidas meio desconexas misturando urban com efeitos eletrônicos e a voz pouco potente mas bem colocada da moça brincando com pequenos falsetes, você começa a perceber que tem algo de diferente aí. Longe de ser overproduced, a letra (co-escrita pela Selena) tem uma pegada autoajuda mas sem ser clichê. É uma ótima abertura de álbum e que casa perfeitamente com toda a temática e o final da versão standard.

“Kill Em with Kindness”  – esse break com os assovios é a coisa mais legal! A faixa é mais EDM, combinando bem com o vocal mais limitado, só que usado de forma inteligente pela Selena. A letra da música (co-composta pela cantora) é boa – trata de quando você está em meio a brigas/discussões ou uma até mesmo a relação da própria Selena com a imprensa ou com outras pessoas que um dia a feriram – ao invés de uma abordagem olho por olho, “acabe com eles com bondade”. Por que não?

“Hands to Myself” – outra música pop com uma pegada dance mas interessante como algumas entonações dela em alguns versos parecem de uma música mais puxada pro Urban. O dedo do MIDAS Max Martin aqui está em um de seus melhores momentos do ano, com certeza. Com produção minimalista e uma ambientação misteriosa, é uma das canções em que eu suspeito de que ela esteja tratando do Bieber – pela vibe bad romance. Poderia ser single (apesar desse álbum não ter uma música com cara de HIT!! mas são tão boas que vc consegue sentir que podem ser bem sucedidas nas radios).

“Same Old Love” – o segundo single do álbum é um pop mais “animado”, misturando um pouco de EDM com levinha pegada urban. A melodia é meio num tempo só, que explode num refrão que é meio juvenil, mas pega você de jeito. A música é grower, e tem uma lógica dentro do álbum, que continua bem fechadinho. Destaco a Charli XCX no refrão, que é sempre ótima de ouvir.

“Sober” – eu gosto dessa batida marcadona e cheia de ecos na bateria (me lembra algo do 1989, sério, ouço até a Swift cantando haha), e mesmo a Selena não tendo escrito, aposto que essa é mais uma sobre o Bieber – já que é mais uma faixa sobre relacionamentos problemáticos. Apesar de não ser tão poderosa quanto as quatro anteriores, continua tendo uma coesão absurda com o resto do álbum. Não parece sem sentido.

“Good for You” (featuring ASAP Rocky) – o primeiro single que surpreendeu todo mundo (até a pessoa que vos escreve), é uma música pop com influências urban , ambientação etérea e sensual, featuring bem colocado do A$AP Rocky e um sucesso insano sem ter sequer posto o pé fora de casa.

“Camouflage” – Depois de termos batidas em maior ou menor grau, entra a baladinha ao piano. A intenção é até boa, a música é até bonitinha, mas fica meio deixada pra trás em meio às boas músicas anteriores. No entanto, a voz da Selena tá boa aqui. Impressiona a interpretação dela e a inteligência com a qual ela trabalha com a voz.

“Me & the Rhythm”  – a coisa melhora outra vez com essa música que é uma delicinha. Eu já imagino os remixes na balada, ou mesmo a versão original tocando. Tem algo meio vintage na faixa (não sei se são os vocais da Selena, que estão sendo utilizados com perfeição em todo o álbum), além da sensação de música de verão, pra dançar no fim de tarde.

“Survivors” – outra faixa mais puxada pro EDM, com um break gostoso sem ser overproduced, é da “família” de Kill Em With Kindness. A letra é etérea como boa parte do álbum, sobre um relacionamento que passou por poucas e boas e chegou a um ponto positivo. Impressionante como Selena consegue fazer muito com pouco.

“Body Heat”  – Selena presta homenagem à sua porção latina com essa faixa mezzo latina mezzo oriental mezzo edm mezzo fuck music que merece uma coreografia nervosa. Tem uma coisa meio J-Lo, que mataria para ter uma música dessas. Não grita single, mas é uma delícia pra dançar.

“Rise”  –  e essa midtempo com coralzinho? outra faixa de autoajuda pra fechar o CD standard com inteligência, eu gostei bastante da letra. Fecha de uma forma impecável o CD, que vai descortinando as histórias da própria Selena. Ainda bem impressionada com o CD.

Entre as do Deluxe Internacional, “Me & My Girls” prossegue com a pegada latina e mostra uma Selena toda trabalhada na sensualidade junto com sus amigas numa faixa meio dance meio latina que parece faixa de filme do Tarantino situado no México. “Nobody” é uma baladinha com pegada R&B que SÓ DEUS SABE O QUE FAZ NO DELUXE! Tirava Camouflage fácil pra colocar essa. E “Perfect” PELAMORDEDEUS SELENA POR QUE VC ME COLOCA ESSA PÉROLA NUM DELUXE? Essa letra, essa melodia, essa interpretação, esse resumo do álbum inteiro numa faixa que nem aparece na versão standard? Vou mandar uma nota de repúdio pra Interscope pra ontem!

 

Sem dizer nada, sem muito chamariz e com um trabalho que fala por si só, Selena Gomez  conseguiu lançar um dos trabalhos mais intrigantes do ano no mainstream. Completamente diferente dos outros trabalhos da jovem, seja com o The Scene seja o “Stars Dance”, ela entrega um álbum extremamente coeso e inteligente, onde todas as músicas possuem ligação, seja lírica, melódica ou em produção. Mesmo nas músicas mais animadas, há um senso de mistério e uma certa obscuridade, aliada às produções que usam efeitos com parcimônia e mostram a voz limitada da Selena com poucos truques – e revelando uma intérprete notável, que usa com inteligência a pouca voz que tem, aliando sensualidade, raiva, alegria e resignação em músicas que podem ser identificáveis com qualquer um.

Não é um CD pra amealhar hits – curioso como as músicas são todas MUITO BOAS, crescem a cada ouvida, mas não tem aquele ar de HIT INSTANTÂNEO, 10 SEMANAS NO HOT 100, ONE SWEET DAY QUE SE PREPARE. Pelo contrário, “Revival” é um álbum pra ouvir em sequência, aproveitando as batidas, cada letra, escutando com calma, entrando na vibe proposta pelo álbum. Selena conseguiu trazer um grupo de produtores como Stargate, Hit-Boy, Rock Mafia, Benny Blanco e Max Martin, e construiu um álbum agradável, gostoso e equilibrado. Não tem pontas soltas (nem “Camouflage” soa perdida, apesar de não ser tão boa quanto as outras), não tem faixas perdidas, e nem os singles já lançados parecem músicas colocadas no álbum só porque são os singles.

Por fim, um álbum maduro que só faz com que a gente espere coisas interessantes da Selena no futuro. Uma artista completamente nova. Renascida.

 

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