A beleza bagunçada por trás da loucura

Cover CD Beauty Behind the Madness The WeekndAté mais ou menos um ano atrás, pouca gente fora da popsfera sabia quem era The Weeknd. Cultuado no meio indie como um talento no altR&B com sua ambiência soturna, letras envolvendo sexo, drogas e autodestruição, e EPs bem recebidos, assim como um álbum já lançado, “Kiss Land” (bem menos comercial que o seu novo trabalho).

No entanto, a sorte do canadense Abel Tesfaye (nome de batismo do artista) mudou no final de 2014. Ele ficou nos ouvidos do grande público ao aparecer como featuring em “Love Me Harder”, da Ariana Grande; e logo depois, no início de 2015, sua “Earned It” virou hit massivo por causa da exposição trazida pelo filme “Cinquenta Tons de Cinza”. Dessa forma, The Weeknd conseguiu dois top 10 e um público que começava a observá-lo com mais apuro – mas isso era só o começo.

Atualmente com duas músicas no top 10 da Billboard (“The Hills”, lançada primeiro e que fez sucesso depois; e o smash “Can’t Feel My Face”, que chegou à primeira posição nos charts), é a hora e a vez de The Weeknd mostrar com o lançamento de “Beauty Behind the Madness” que, com todo o apelo do mainstream, ele continuaria a manter a mesma qualidade e identidade dos trabalhos anteriores. Mesmo trabalhando com Max Martin, aliás.

 

O resultado dessa ascensão meteórica? Você confere após o pulo!

  • Real Life: a música que abre os trabalhos do álbum, me lembra a própria The Hills em arranjo e ritmo. Uma boa introdução ao CD, faz jus ao repertório obscuro e autodestrutivo do canadense, mas numa pegada mais pop.
  • Losers: mais “alternativa” que a primeira faixa – e beeem menos pop, conta aqui com a participação do britânico Labrinth, que funciona como um bom contraponto à voz do The Weeknd. A faixa é menos fácil de digerir, mas não menos boa. Gosto muito do acompanhamento com o piano.
  • Tell Your Friends: com produção e co-composição de Kanye West, Tell Your Friends já pode ser considerada uma das highlights do CD. Com uma pegada mais hip hop soul, mostra Abel falando exatamente dessa mudança de vida – de um cara indie e pobretão para um cara famoso e com tudo ao alcance, mas ainda cantando exatamente sobre os mesmos assuntos: sexo, drogas e relacionamentos autodestrutivos. Ou seja, você até pode ser grande, mas dá pra fazê-lo ainda mantendo algo da sua identidade. (e ainda tem um solinho de guitarra ótimo no final)
  • Often: No campo mais “altR&B” do álbum, um dos singles promocionais do BBTM é outra canção bem representativa, em termos líricos, do material do Abel. É curioso como aqui, ao invés dele entrar numa vibe meio “fanfarrona”, como em alguns momentos de Tell Your Friends, a coisa fica mais creepy. Se a vida dele for realmente o que tem na música…
  • The Hills: ou “sobre relacionamentos destrutivos estrelando The Weeknd” ou como o CD vai ficando melhor e começa a não perder o ritmo com essa faixa parecida em ritmo e arranjo com Real Life, mas que tem um caráter comercial curioso apesar de não ser tão instantânea quanto Can’t Feel My Face, por exemplo. Mas é um petardo violento no seu ouvido.
  • Acquainted: o miolo do álbum tem uma coesão admirável, tanto em letras quanto em melodias. Acquainted é a música menos inspirada desse grupo, mas continua sendo uma ótima música, mais acessível que Losers, por exemplo (apesar da virada surpreendente e mais downtempo do finalzinho da música).
  • Can’t Feel My Face: *não prestei atenção porque estava dançando feito uma pateta* Aliás, que quebra de expectativa foi essa da faixa? Eu a-m-o CFMF, sei até o que realmente ela significa e como ela realmente funciona dentro da lógica de todo o álbum, mas esse funkeado disco 80’s realmente é um soco no estômago depois de toda uma musicalidade mais R&B slow, quase alternativa. Deve ser porque aqui começam as produções do Max Martin. Mas continua sendo uma highlight do álbum.
  • Shameless: crente que era uma baladinha sincera com violão, mas não é assim que Abel Tesfaye age. Aqui ele fala pra namorada que sabe que ela está em dúvida em amar, mas que ele vai estar lá o tempo todo por ela, mesmo que só como uma válvula de escape. Isso falando por eufemismos, já que ele diz (e grita) que não tem vergonha do próprio comportamento. Ótima faixa, tem cara de música de fim-de-episódio-de-série.
  • Earned It: se não entendi a quebra imensa de expectativa de Can’t Feel My Face, o que dizer de Earned It, super polida e séria e pop metida no meio da tracklist de um álbum que tem toda uma lógica lírica e melódica? Pelo menos dá pra entender que CFMF foi feita para o CD, Earned It foi feita pra um filme.
  • In The Night: se você achava que em Can’t Feel My Face, o The Weeknd emulava bastante o Michael Jackson, é porque você não ouviu essa música. Uma das highlights do álbum, é um pop bem late-80 que lembra bastante as coisas do “Bad”, e o vocal evocativo está fortíssimo aqui. A história cabe à interpretação do ouvinte – eu entendi, acompanhando a letra, que se tratava de uma jovem prostituta, explorada desde muito tempo.
  • As You Are: midtempo com inspiração bem late-80, eu gosto muito do arranjo e da produção etérea, limpa, sofisticada, bem Adult Contemporary. Não é a mais inspirada das faixas, mas acho uma fuck music decente.
  • Dark Times: o segundo featuring do álbum é bem mais trabalhado que em Losers – já que a letra ajuda: é como se Abel e Ed Sheeran (ele mesmo, o ruivinho britânico) fossem dois caras que tivessem brigado e agora estão de volta às suas casas e suas más decisões, numa faixa bem soul e bem carregada. Não tem cara de single (nem falei isso aqui, percebeu?), mas é uma música brilhante.
  • Prisioner: o terceiro featuring do álbum é com a Lana del Rey – e juro que não pensei em como ficaria o resultado final. No fim, não ficou tão sensacional quanto a faixa anterior, mas achei mais acessível – pra não dizer crossover. Eu gosto da letra, dessa parte mais confessional de que os dois sabem que a posição em que estão, a vida que levam (o que quer que essas metáforas signifiquem), são ruins, mas estão presos a isso. E como a temática que perpassa todo o álbum cai tão bem na voz onírica da Lana.
  • Angel: a faixa que encerra o álbum volta lá para aquele combo de canções com visível inspiração anos 80. Parece muito com aquelas power ballads da década, o que é ótimo, e dá um toque final ao mesmo tempo bonito e melancólico ao CD, com direito a guitarras ao fundo e um corinho discreto.

“Beauty Behind the Madness” já sai na frente como um álbum acima da média dos outros lançamentos mainstream de 2015.  Com uma identidade bem visível, em letras, conteúdo, cenário, você consegue enxergar os temas e entrar na história que ele vai contando no percurso do álbum. Não é um cd feliz, é um cd de tormentos e relacionamentos destrutivos e abusivos – seja com alguém que se ama, seja com a própria fama, seja com as drogas. Tem coisa pesada, mas tem metáforas dessa autodestruição que funcionam de forma crossover e podem oferecer significados diferentes. O álbum tem highlights e quando não são os destaques do CD, as faixas são muito boas. Outro elemento bacana do álbum são os momentos de coesão do CD – ali, entre “Tell Your Friends” e “Acquainted” – faixas de produção, composição e temáticas similares; e a partir de “Can’t Feel My Face” você tem uma produção diferente, com letras mais variadas, mas a coesão na produção salta aos ouvidos perfeitamente. Você sente que há um projeto ali, um conceito. E os featurings são ótimos.

O problema é que, apesar de ser acima da média dos outros, não é exatamente o álbum que fosse destruir minhas certezas como eu esperava. Pelo contrário, a sensação que ficou foi de que o Abel pensou num álbum para dois públicos, porque os momentos de coesão do BBTM parecem ilhas – elas não se conectam através de uma faixa mais transitória, não possuem semelhanças em ritmo e produção e parece mesmo um álbum bipolar: na primeira parte (pré “Can’t Feel My Face”) há uma produção bem mais agressiva e menos “polida”; após CFMF, as produções são mais sofisticadas e pop. A coesão lírica não se repete na tracklist, que parece fragmentada em sonoridades diferentes (talvez para esses dois públicos?), especialmente com as duas faixas que mais quebram expectativas no CD inteiro, “Can’t Feel My Face” e “Earned It” – aliás, o que esta última faz no CD mesmo?

No fim da audição, não há do reclamar: “Beauty Behind the Madness” é um álbum diferenciado em relação aos outros lançamentos mainstream, bem produzido, coeso, forte, com identidade; mas abaixo do que eu esperava, abaixo da vontade que eu tinha em amar o álbum. Eu queria muito, mas não consegui 😥

Agora, que o álbum pode chegar forte no Grammy do ano que vem, isso vai.

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3 comentários sobre “A beleza bagunçada por trás da loucura

  1. Ótimas colocações. O grammy fez bem em indica-lo em 07 categorias. Earned it é uma excelente canção, não há o que se duvidar, apesar de não comunicar tão bem com as outras faixas. Apostaria que esta faixa fosse um bônus em um deluxe. Quanto a indicação ao oscar desta musica, creio que elevou o nível do cd. Gostaríamos que você fizesse uma resenha sobre os três cantores indicados ao oscar e as possibilidades de premia-los. abraços. Excelente blog. ❤

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