A segunda invasão das soundtracks

A trilha sonora de um filme é uma série de músicas que acompanham o desenrolar da produção. São músicas instrumentais, criadas para dar o toque de tensão, romance, mistério e adrenalina nas cenas (as trilhas do John Williams para os filmes do Spielberg; o trabalho de Bernard Hermann com Hitchcock, Hans Zimmer com as trilhas do Batman do Nolan, Bill Conti quase uma instituição dos filmes do Rocky, e por aí vai); ou são as canções que os personagens interpretam nos musicais (insira aqui todos os musicais que você tenha visto na vida, desde “My Fair Lady” até “High School Musical”); sem contar algum filme cheio de músicas pop que acompanham a vida dos personagens, incluindo uma ou duas músicas-tema que serão lançados como single para alavancar a ida dos espectadores ao cinema (eu poderia citar inúmeros nomes, mas o mais recente é, evidentemente, “See You Again” de Velozes e Furiosos 7).

Em resumo: as trilhas de filmes convivem conosco desde antes mesmo do filme ser falado, mas em alguns momentos específicos da história do cinema, lançar uma música que fizesse parte de um filme era sinônimo de sucesso. E quanto mais pop, melhor. Não falo de faixas icônicas como “Raindrops Keep Falling on my Head” ou “Theme From Shaft”, nem mesmo das músicas de abertura dos filme do James Bond. Estou dizendo do boom de músicas com forte acento pop que estouraram nos anos 80, que chegaram ao #1 lugar nas paradas e conseguiram até mesmo Oscar, acompanhadas por filmes que, se não eram o supra-sumo da qualidade artística, alguns deles foram recordes de bilheteria, enquanto outros acabaram ficando em segundo plano em relação às músicas que acompanhavam a película.

É só ver as músicas indicadas à estatueta dourada naquela época e adivinhar quantas delas você conhece:

indicados oscar 80s
Eu garanto uma coisa: que “A Força do Destino” (“An Oficer and a Gentleman”) e “A Dama de Vermelho” (“The Woman in Red”) não devem estar na sua lista de filmes já vistos.

 

Giorgio Moroder REI o resto nem sei
Giorgio Moroder REI o resto nem sei

Pois é, jogue pelo menos “Take My Breath Away” no Youtube e momentos da sua infância com Tom Cruise voando num caça e paquerando a Kelly McGillis ecoarão em sua mente. E ainda tem mais: desde “Fame” até “Take My Breath Away”, os vencedores do Oscar chegaram à primeira posição na Billboard Hot 100. Ou seja, são hits massivos e clássicos, que até hoje estão na boca do povo (se bem que os fãs de “A Pequena Sereia” devem lembrar de “Under The Sea” 😉

Nos anos 90, a dominação dos vencedores do Oscar foi com as trilhas sonoras da Disney – e “A Pequena Sereia”, como o filme que proporcionou o ressurgimento do estúdio após uma década de flops, acabou abrindo espaço para vitórias de outras trilhas sonoras históricas, como “Beauty and The Beast” (por “A Bela e a Fera”), “A Whole New World” (de “Aladdin”), “Can You Feel the Love Tonight” (de “O Rei Leão”), “Colors of the Wind” (vencedor por “Pocahontas”) e “You’ll Be in My Heart” (música de “Tarzan”). É só ler o nome que a memória volta à infância. Mas apesar de clássicas e icônicas, não são exatamente músicas pop.

A partir da década de 2000, apesar da variedade de músicas vencedoras (dois dos ganhadores são do gênero rap), a maioria dos vencedores perdeu o acento super pop que as vencedoras dos anos 80 tinham. Mas durante o final da década, com a chegada das franquias adolescentes desejosas em repetir o sucesso de bilheteria de “Harry Potter”, um novo combo surgiu: lança o filme + lança o CD da trilha sonora que geralmente é melhor que o próprio filme – lembrando que algumas músicas de franquias foram lançadas na esteira dos filmes, mas não com o estouro provocado por essa tendência, que podemos creditar a “Crepúsculo”.

A partir de “Crepúsculo”, em maior ou menor grau, as franquias se esforçaram em trazer músicas que vendessem – e ajudassem na bilheteria dos filmes. Isso se tornou sinônimo de “prêmio” com o efeito “Let It Go”, quando a Disney voltou à cena das soundtracks e com “Happy”, os artistas pop voltaram ao centro das trilhas sonoras, trazendo de volta o acento pop e as trilhas sonoras com pesos pesados, chegando ao ápice com “See You Again”.

E de “Crepúsculo” até “Velozes e Furiosos 7”, houve um longo caminho…

Poster Crepúsculo“Decode” e o caso da trilha sonora que é melhor que o filme (1)

“Decode” é o lead single da trilha sonora do primeiro filme da saga “Crepúsculo”, lançado pela banda Paramore em 2008. Chegou à #33 colocação na Billboard (não se esqueça de que o Paramore, apesar de já conhecido naquela época, não estava no auge como agora), com uma música que, se tivesse sido lançada sem ser no filme, afundaria no flop eterno, porque essa pegada mais “gótica” já estava ficando para trás há algum tempo. Mas “Decode” é ótima, e tem uma pegada mais pesada que o próprio filme, que no fim das contas, é mais um romance(ruim) água-com-açúcar que um suspense ou terror.

A música também ajudou a manter o “Paramore” na boca do povo – e de pessoas que nem curtiam muito rock, mas tinham assistido ao filme. Talvez a banda tenha ganho uma grande base de fãs após a música.

 

 

“A Thousand Years” e o caso da trilha sonora que é melhor que o filme (2)Amanhecer Poster

Christina Perri será lembrada por anos por causa dessa música que serviu como o segundo single da trilha sonora da “Saga Crepúsculo: Amanhecer Parte 1”. “A Thousand Years” chegou à #31 na Billboard Hot 100 em 2011, uma posição que não representa muito bem o efeito dessa música no inconsciente coletivo das pessoas, especialmente após o cover da música na segunda edição do The Voice. Pena que Christina Perri não conseguiu acompanhar o sucesso da música, porque merecia só pela delicadeza da faixa, e todo o caráter timeless da canção.

 

(o primeiro single desse álbum, “It Will Rain”, do Bruno Mars, teve uma sorte (bem) melhor nos charts – #3 na Billboard Hot 100 em 2011, mas acredito que eu – e boa parte do público – não associa muito a música ao filme, e mais ao repertório do Bruno. E acredito que o desempenho da música não foi exatamente por causa do filme, mas pelo nome do próprio artista que estava em alta naquela época)

 

Jogos vorazes poster“Safe & Sound” e o degrau acima das soundtracks populares

O lançamento de “Jogos Vorazes” trouxe em seu bojo um álbum inspirado pela temática do filme. A maioria das músicas lançadas na soundtrack do filme não aparecia realmente durante a exibição – apenas três faixas, uma delas sendo “Safe & Sound”, parceria da Taylor Swift com o duo The Civil Wars. A música é linda, simples e etérea, funcionando bem como parte do filme e toda a atmosfera melancólica ligada ao futuro apocaliptico retratado na franquia estrelada por Jennifer Lawrence. A faixa chegou à #30 no Hot 100 em 2012 e foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original, perdendo para “Skyfall” (por que será né)

 

A Disney volta ao jogo em grande estilo com “Let It Go”Frozen Poster

“Let It Go”, o hino de libertação da Elsa (e de milhões de meninas mundo afora), já está na lista dos grandes clássicos da Disney, lembrados para sempre. Além do impacto de crítica e público, a faixa conseguiu uma proeza: alcançou o sucesso não com sua versão pop, interpretada por Demi Lovato, e sim por conta da versão tocada durante o filme, interpretada por Idina Menzel. A faixa chegou à #5 no Hot 100 em 2013, um feito histórico para a Disney, porque a maioria dos filmes lançados pelo estúdio vinha sendo em parceria com a Pixar, que com seus neo-clássicos, vinha suplantando o estúdio do Mickey Mouse na área em que eles eram reis: as animações para toda a família.

A Elsa destruiu tantos forninhos que a música, franca favorita para levar todos os awards relacionados a trilha sonora em 2014, conseguiu o Globo de Ouro, o Oscar, o Grammy e o Critics’ Choice Awards de Melhor Canção Original.

 

DM2_31_5_Promo_4C_1.indd“Happy” transcende o filme que acompanha (como os clássicos oitentistas)

Apesar de ter perdido pra “Let It Go” em todas as categorias em que ambas concorriam para as soundtracks, “Happy” foi mais bem sucedida que sua rival, especialmente porque hinou metade do ano com seu clipe viral e música viciante. A faixa, lead-single da soundtrack de “Meu Malvado Favorito 2”, levou Pharrell (que até 2013 era um grande produtor com créditos entre os mais diversos artistas, de Britney Spears, Snoop Dogg, Miley Cyrus a Madonna) a se tornar uma figura central na música e na cultura pop. “Happy” transcendeu o filme e se tornou uma música independente da canção, tanto que logo cansou todos os nossos ouvidos pelo overplay.

Mas a música, que reinou na Billboard Hot 100 em #1 por dez semanas, e sendo o single mais vendido de 2014. A faixa também entrou na tracklist do seu álbum “G I R L” (por razões aleatórias, porque a música não tem nada a ver com o resto do álbum) e colocou Pharrell e seu chapéu entre os recordistas do Hot 100.

 

J-Law virou cantora com “The Hanging Tree”Jogos Vorazes a esperança poster

O álbum que continha as músicas da trilha sonora de “Jogos Vorazes: A Esperança parte 1” teve a produção executiva da Lorde, que chamou seus amiguinhos Grace Jones, Simon Le Bon do Duran Duran, Diplo, Miguel, The Chemical Brothers, Charli XCX, Stromae, Major Lazer e Ariana Grande para compor a trilha. Pesos pesados do indie e do pop colaboraram com músicas no álbum, e a própria Lorde tem músicas, incluindo o primeiro single do CD, “Yellow Flicker Beat” (cujo peak na Billboard foi 34 em 2014)- que chegou a concorrer ao Globo de Ouro de Melhor Canção Original. No entanto, enquanto todo mundo esperava que a neozelandesa alcançaria outro top 10 na Billboard com a faixa, eis que chega uma música que estava fora do álbum da trilha e passa a perna em todo mundo.

Trata-se de “The Hanging Tree”, música cuja letra está no livro “A Esperança”, de Suzanne Collins (que deu origem ao filme) e que recebeu melodia além da voz sem afetação da Katniss em pessoa, Jennifer Lawrence. A faixa, que se desenvolve num maravilhoso crescendo, chegou a #12 na Billboard, e apesar de não ser exatamente uma música feita para acompanhar o filme, conseguiu ultrapassar as barreiras da película e se tornou um hit – sem nenhuma performance televisionada aliás.

A Culpa é das Estrelas PosterAdolescentes tem mais uma trilha para chamar de sua: “Boom Clap”

“A Culpa é das Estrelas” é mais um filme destinado aos adolescentes que recebeu como acompanhamento uma trilha sonora espertinha, meio indie, mas com um lead single com fortíssimo apelo pop e uma atmosfera meio oitentista/noventista: “Boom Clap”, o top 10 da Charli XCX que a colocou na boca do povo junto com o megahit “Fancy”. A música funciona bem no filme, até como um momento agradável dentro de um romance tão agridoce como o dos personagens principais. “Boom Clap” originalmente seria usada no seu primeiro álbum, “True Romance”, e ainda foi oferecida para Hilary Duff antes da Charli usar a canção como contribuição para a trilha de “A Culpa é das Estrelas”.

A faixa chegou a #8 na Billboard Hot 100 e seu caráter simples e despretensioso tem tudo para sobreviver por muito tempo no imaginário coletivo – principalmente porque o filme tem cara de que vai fazer uma longa e proveitosa carreira na Sessão da Tarde.

 

O boom das soundtracks: “Cinquenta Tons de Cinza”Cinquenta Tons de Cinza poster

O lançamento da trilha sonora de “Cinquenta Tons de Cinza” já vinha com um hype fortíssimo, porque a imprensa já tinha noticiado a presença de Beyoncé na trilha com duas músicas: “Haunted”, que já fazia parte do selftitled; e uma versão mais sexy de “Crazy in Love”. Além da Bey, Sia, Skylar Grey, Ellie Goulding e The Weeknd também contribuíram com músicas (além do cover de “I Put A Spell On You” interpretado magistralmente pela Annie Lennox e que aparece na abertura do filme).

Sinceramente? “Cinquenta Tons” é um lixo, mas a trilha sonora é magnífica, muito melhor que o filme e com canções que conseguem transcender a produção. A trilha é tão boa que garantiu dois top 10 na Billboard para dois singles do álbum,  a romântica, pop  e mais simples “Love Me Like You Do” (peak: #3), da Ellie Goulding; e a minha preferida, a sexy e misteriosa “Earned It”, do The Weeknd (peak: #4). As duas músicas tinham possibilidades, pelo apelo nas rádios, digital e streams, de chegarem ao primeiro lugar, mas estavam na “Uptown Funk season” e não conseguiram alcançar o topo… Só um hype fortíssimo, maior mesmo que o hype de “Cinquenta Tons de Cinza” e toda a polêmica e controvérsia envolvida, para que essas duas músicas conseguissem o #1.

Mas a grande contribuição de “Love Me Like You Do” e “Earned It” foi ter sedimentado o espaço das soundtracks mais pop nos charts, tornando-as mais populares e comuns na parada como ocorria há alguns anos, mais especificamente os anos 80.

 

Velozes e Furiosos posterUma canção timeless e o buzz Paul Walker: “See You Again”

Um hype maior que um filme controverso é o hype em torno do (até o momento) último filme de uma franquia bem-sucedida, com um apelo melancólico pela morte repentina e trágica de seu principal astro. E se a música que presta homenagem a esse ator for linda, tocante e atingir mais pessoas que apenas aqueles que viram o filme, esse hype é mais alto ainda. O efeito que “See You Again”, de Wiz Khalifa e Charlie Puth, teve nos espectadores foi insano – o que teve de gente chorando no fim de “Velozes e Furiosos 7” não está no gibi, e com a trajetória meteórica da música nos charts mundiais – acompanhado pelas bilheterias imensas por todo o mundo, trata-se de um caso em que música e filme caminham juntas para voos ainda maiores, e mesmo que “See You Again” possa sobreviver sem o filme (já que o tema de perda é identificável a qualquer um, em qualquer fase da vida), a primeira associação da música será, evidentemente, com a perda de Paul Walker, um dos protagonistas da franquia “Velozes e Furiosos”.

O fato é que “See You Again” tombou a “Uptown Funk season” e o #1 na Billboard não me parece uma chuva de verão – a música não para de subir em todos os formatos de audição, e acredito na vida longa que terá nas rádios. Se as músicas do “Cinquenta Tons de Cinza” ajudaram a consolidar as trilhas sonoras novamente como um evento pop, “See You Again” eternizou as soundtracks – e pode abrir espaço para cada vez mais artistas lançarem singles ligados a filmes – pra que logo, aqueles vencedores do Oscar sejam músicas que realmente ficaram no inconsciente coletivo pelo seu caráter pop.

 

O que fiz aqui nesta pequena linha do tempo foi mostrar que desde o lançamento da trilha sonora de “Crepúsculo”, a indústria do cinema e a indústria musical voltaram a caminhar juntas na busca por trilhas sonoras com caráter mais pop, que além de acompanharem as cenas dos filmes, também ajudariam nas bilheterias. Algumas dessas canções talvez não terão o caráter atemporal que se espera(ria), mas é visível que as trilhas comentadas aqui são de blockbusters bem sucedidos, e que a escolha por mesclar pesos pesados com artistas mais alternativos se torna interessante para colocar em evidência nomes que o grande público não prestaria tanta atenção se não estivessem ligados ao filme; além de colocar esses artistas famosos lidando com um material mais desafiador que o trabalho regular.

Se esses artistas tiverem a sorte de beliscar uma indicação a awards importantes, melhor ainda.

Não é coincidência que cada vez mais artistas relevantes vem associando seu nome no desenvolvimento de trilhas sonoras para filmes (como a própria Adele, John Legend, Rihanna, Janelle Monaé), porque além da relevância musical, eles atingem também um público que consome filmes mas que talvez não ouça as músicas deles fora das soundtracks.

Acredito que estamos chegando perto do período em que as soundtracks mais pop sejam consagradas pelos awards como o Oscar (já que o Globo de Ouro é mais aberto a elas há bastante tempo), mas é necessário que essas trilhas sejam valorizadas, mesmo que os filmes os quais essas músicas sirvam de trilha não sejam tão bons.

 

Qual dessas músicas é a sua favorita?

 

 

 

 

 

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