TIDAL – a onda que ninguém quer pegar e o consumo livre de música

Eu gosto de música, desde criança, quando não tinha muito critério sobre o que ouvia e sempre estava escutando tudo. Fui crescendo e mudando o meu gosto – comecei a ouvir músicas antigas, dos anos 70, 80. Tive sorte, porque minha adolescência ocorreu durante a explosão da internet, numa época em que cada vez menos as pessoas compravam álbuns e meus hábitos de consumo de música eram baixar alguma faixa por algum site de downloads, já que um CD antigo do Marvin Gaye ou o material do Chicago não eram coisas que eu conseguiria achar facilmente aqui em Salvador.

Com 15 anos, passei a ouvir de novo músicas mais recentes, e logo descobri realmente do que eu gostava, o que me tocava de verdade e atiçava minha curiosidade: era a música pop internacional, assim como outros gêneros como R&B, soul e hip hop. Mais adulta passei a ouvir um pouco de rock, mas a minha formação foi basicamente pop. Só que, morando numa cidade longe das metrópoles centrais do Brasil e tendo perdido o costume da infância de ouvir álbuns físicos, baixei de forma contínua músicas, álbuns, discografias inteiras pela internet. Colocava um CD que gostava no celular, ou no mp3, e circulava pela cidade ouvindo as músicas que eu queria.

Quando recebi finalmente meu convite para usar o Spotify, no ano passado, foi como se um mundo novo se escancarasse diante dos meus olhos. A minha extensa biblioteca do notebook era pálida em relação ao catálogo de milhões de músicas e artistas, que eu poderia arrumar e catalogar eu mesma em minhas playlists ao meu bel-prazer. E assim, deixei de baixar músicas pela internet, porque as novidades estavam à mão, os álbuns logo sairiam em excelente qualidade pelo Spotify e o aplicativo já estava instalado no meu celular. Eu pago seis dólares pelo serviço, e normalmente aparecem uns 15 reais na minha conta todo mês.

Para alguém que não pagava pela música que consumia, isso é uma evolução.

O Spotify – e os serviços de streaming, de forma geral – revolucionaram a forma de consumo de música de uma forma irremediável. Ter à sua mão, por um preço quase simbólico, um catálogo de músicas que demoraríamos três vidas (and counting) para possuir, em excelente qualidade e podendo escolher o que ouvir, como ouvir, onde ouvir? É brilhante. E alguns desses serviços são grátis, o que significa que você pode ouvir gratuitamente (mesmo com anúncios e algumas limitações de serviço) o que você quiser, servindo-se do mesmo catálogo musical dos planos pagos.

O retorno desse consumo massivo de música já é visto – eu sempre comento aqui que os streamings já contam pontos para decidir se uma música sobe ou desce nas paradas (tanto os streamings de Spotify, Pandora, Rdio e similares quanto as views de vídeos e virais no Youtube) – tanto para os consumidores quanto para os artistas e as gravadoras. Com a decadência das vendas digitais, o streaming é o futuro. E artistas recebem os retornos financeiros de cada play dado por sua música.

TidalNo entanto, alguns grandes artistas reclamaram do preço dado como retorno por essas audições – e contra-atacaram. Primeiro foi Taylor Swift, que retirou todo o catálogo do Spotify por não concordar com o serviço free oferecido pela empresa e queria que apenas usuários premium tivessem acesso ao novo álbum. Depois, o relançamento na última segunda-feira do TIDAL, novo serviço de streaming capitaneado por Jay-Z, com uma proposta de oferecer música e vídeos em alta qualidade, além de uma aproximação maior dos artistas com o público (já que o serviço é comandado pelos artistas como Beyoncé, Rihanna, Jack White, Madonna e Daft Punk) com dois tipos de plano: um premium, por dez dólares; e um HiFi, por 20 dólares, em que o diferencial é a qualidade loseless, som de altíssima qualidade, a mesma de um CD (1411 kbps).

Não há versão free.

E será sobre o TIDAL que vou falar agora.

Na verdade, a questão vai além do ser free ou não. De fato, o TIDAL ser free, ou não ter um desconto para estudantes (como o Spotify tem nos EUA e faz do serviço um sucesso estrondoso por lá), ou ter um serviço de 20 dólares que parece não fazer sentido algum se você não tiver um fone de ouvido especial estão entre os motivos pelos quais a mais nova empreitada de Jay-Z parece uma onda problemática.

(tanto que ele e a executiva do TIDAL, Vania Schlogel, já se apressaram a dizer que sim, terão descontos para estudantes. Quando, é o mistério.)

É importante ressaltar que as pessoas podem pagar por comida e recursos primários, mas a geração que cresceu (e ainda cresce) com os olhos vidrados na internet não quer saber de pagar por música. Se nossos pais ou irmãos mais velhos compravam CDs regularmente, nós não queremos saber disso. Crescemos com o conceito de que a Internet é um território livre para descobrirmos não apenas mais sobre música, mas sobre livros e filmes. A pirataria é um problema que nunca será resolvido, mas pode ser burlado – pelos streamings.

Por isso o Spotify enche os olhos de tanta gente. Ouvir tanta música sem pagar? Ou pagar um preço módico? Claro que vamos entrar nesse barco, oras! “Melhor ouvir todos os álbuns da RiRi e da Bey de uma vez ao invés de baixar no torrent, que pode demorar, e correr risco de pegar algum vírus”, pensam alguns. E é assim que as pessoas pensam.

Screenshot tidal

Elas não querem pagar por um serviço que pode ter em sua mão de graça. E isso se aplica aos vídeos. Por que pagar 10 dólares para ver o clipe da Madonna no TIDAL se tem o mesmo vídeo de graça no Youtube, também em alta qualidade? É assim que as pessoas pensam, e o erro de Jay-Z e seus amigos celebridades é pensar que os ouvintes se preocupam tanto assim com música. Gostamos de música e queremos materiais bacanas, mas gostamos muito mais de nosso dinheiro. E eles esquecem que a maioria das pessoas são ouvintes ocasionais, não audiofílicos que tem o fone mais moderno e maravilhoso que consegue ouvir perfeitamente um áudio loseless. Quem se importa com loseless?

Além disso, a impressão que se teve de todo o buzz em torno do TIDAL na segunda-feira, com fotos dos artistas no Twitter e Facebook modificados para uma imagem toda em azul ciano cegante, culminando com o lançamento do serviço – que mais parecia a festa da firma, com todos constrangidos, pegou muito mal para todos os artistas envolvidos, que receberam um backlash do grande público e de importantes veículos de mídia. Considerados mimados, gananciosos e loucos por dinheiro, Jay-Z e seus amigos/sócios (que terão 3% dos lucros da empresa) não conseguiram traduzir no lançamento do TIDAL o que eles queriam propor: que esse novo serviço, comandado pelos próprios artistas, daria mais espaço para eles que as empresas que atualmente dominam o setor. Retorno de royalties maior, mais espaço para artistas pequenos, aproximação dos artistas com o público.

Mas vamos pensar bem, calmamente: é fato que os serviços de streaming realmente dão um retorno muito baixo (o Spotify repassa entre US$0.006  e US$0.0084 por cada vez que a música é tocada – e não se esqueça de que esse dinheiro, ao todo, será dividido entre os artistas, compositores, produtores, mixadores de som; enfim, todos os envolvidos no trabalho, sem contar a gravadora). Mas, ninguém parou para pensar em:

o culpado pelo retorno baixo desses royalties dos artistas é realmente o serviço de streaming ou da gravadora, que repassa esses valores já redivididos aos cantores e bandas?

Não vamos nos esquecer de que essa grana é passada para a gravadora, que repassa para todos os elementos envolvidos na produção das músicas. Ou seja, a Taylor Swift até tinha motivos para reclamar desse dinheiro – seu pai tem parte da gravadora em que ela é contratada, indiretamente ela já recebe essa grana. Mas uma Beyoncé, com seu star power; nomes como Daft Punk, Alicia Keys, Usher e Chris Martin do Coldplay, não tem poder o suficiente para exigir melhores contratos e retorno financeiro das GRAVADORAS e não do Spotify? Claro que o serviço de streaming deve ser cobrado por um retorno mais justo; mas a corda talvez não esteja sendo puxada pelo lado mais “fraco” dessa equação?

Tidal lançamento

Tem outra continha aí que não bate: se esse grupo de sócios que comanda o TIDAL é também dono da empresa (duh, Marina), isso significa que eles vão querer ter prioridade no lançamento exclusivo que evidentemente será feito pelo serviço, não é? O novo single da Madonna, o novo álbum da Nicki Minaj… Mas e o lançamento da Katy Perry? Será que terá prioridade, já que ela não é uma das sócias do TIDAL? Será que eles podem demorar a lançar na plataforma alguma coisa da Lady Gaga, porque pode ser um rival do trabalho das outras artistas? Onde fica a livre concorrência aí?

Porque uma das questões levantadas pelos defensores do TIDAL que não são os donos da empresa é: num mundo dominado pelo Spotify, tem que ter concorrência, né? Claro, eu sou #teamSpotify e conheço várias pessoas que preferem o Deezer, outras que usam o Google Play Music, e gente que não sabe nem do que estamos falando. Tem que ter mesmo concorrência para melhorar os serviços e o consumidor ser mimado para que ele continue pagando (ou não) àquela determinada empresa. Mas se a Taylor Swift tirou todo o catálogo dela do Spotify mesmo sem ter uma empresa de streaming pra chamar de sua, o que podem fazer esse grupo de artistas que agora são donos desse serviço? Porque a Rihanna lançou “Bitch Better Have My Money” no TIDAL e nada no Spotify (sem contar a demora em lançar “FourFiveSeconds”). É o direito deles em colocar seu material na sua plataforma (“é minha, eu comprei”), mas se esses cantores decidirem simplesmente que vão deixar todo o material deles apenas no TIDAL, já que é deles mesmos? “Quem quiser que pague pra me ouvir”?

Esse é o medo, essa é a preocupação.  A livre concorrência e a liberdade de ouvir música cerceada pela vontade de ganhar mais e mais de um grupo que já tem mais e mais. E aí voltamos à caçar os sites de downloads, porque entre pagar 10 dólares pelo serviço (veja que eu tô pagando seis) e procurar músicas de graça, sinceramente, sendo coagida? Prefiro não pagar. A graça de você escolher um serviço de streaming é optar pelas funcionalidades, preços, benefícios, se o app para o celular é bacana, se a versão do desktop é pesada ou não, quantas músicas offline eu posso ouvir. Não se você só vai ouvir aquela música naquele serviço. A geração de onde eu venho lida com essas questões de outra forma, e vai correr para o “download ilegal tour” sim.

Por essas razões, acredito que o TIDAL (que ainda não chegou ao Brasil) “renasceu” (já que existia na Europa no ano passado, sem o controle do Jay-Z) com um sério problema de imagem e reputação: apresentado como uma “revolução” e uma “nova forma de consumir música”, parece diante dos olhos do público uma nova forma dos astros milionários da música em ganhar mais dinheiro vendendo a mesma coisa que os outros serviços só que travestido de algo novo – e para piorar, atingindo o alvo errado na busca por “igualdade de retorno financeiro dos artistas”: o consumidor, e não a gravadora que retém o dinheiro.

E você, o que acha da polêmica envolvendo o TIDAL? Como é o seu consumo de música atualmente?

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4 comentários sobre “TIDAL – a onda que ninguém quer pegar e o consumo livre de música

  1. Tenho que discordar, eu percebo claramente a diferença entre MP3 e lossless, e a versão Hi-fi que é a mais top está custando oito dólares.
    Eu acho justo pela qualidade do streaming e estou satisfeito, sei que sou exceção e que a maioria não liga pra isso, mas eu sim.
    Spotify em qualidade de streaming de 0 a 10 leva uma nota 3, na versão paga!
    Quanto ao layout dou nota 9, é muito intuitivo e organizado.
    Já o Tidal leva 10 no streaming e 8 no layout.

    • Discordo sobre muitos pontos prestados aqui, não é preciso ter um fone top de linha para perceber a diferença entre musicas do TIDAL e mp3, a diferença é clara para qualquer ouvinte. Quanto ao pagar ou recorrer para o piratex, não pode ser discutido, porque esta se discutindo entre algo legal ou não, sou recem assinante do TIDAL e fiquei impressionado com o acervo, e principalmente a qualidade, para você ter uma ideia, todos os meus amigos que mostrei e comparei um mp3 com o tidal utilizando o smartphone com fones originais ficou impressionado com a qualidade e por fim virou assinante. So de pensar em se livrar das buscas incessantes por algo recém lançado em alta qualidade… Talvez você precise conhecer um pouco mais sobre a empresa e principalmente os motivos aos quais levam os artistas a apoia-lo antes de escrever uma matéria. Estamos falando de uma indústria com excelentes profissionais, que vem sendo prejudicada com a pirataria ao longo dos anos, que obviamente a saída seria mudar a forma de trabalho ou chegar ao fim, como tantas outras, ou tantos outros artistas fadados ao esquecimento. Por tanto sou a favor de qualquer empresa que possa fazer com que todos ganhem, o usuário por pagar pouco por um acervo impressionante e qualidade impecável e o artista que tenha um lucro maior e possa produzir cada vez mais musicas,clipes e shows sensacionais.

      • Quando os primeiros testes foram feitos, durante o trial assim que o produto foi (re)lançado, o Tidal abriu um teste para os possíveis usuários poderem diferenciar o som lossless do 320kbps. Com um fone de ouvido comum, tudo parecia a mesma coisa pra mim. E para um ouvinte comum, não um aficcionado por música, será que essa diferença é tão relevante para o consumo?

        E eu não sou contra o serviço streaming nem o serviço pago de streaming – pelo contrário, a minha conta do Spotify é paga; no entanto, o que eu questiono é a “exclusividade” prometida pelo Tidal – você só pode ouvir determinado artista apenas aqui. Quer ouvir minhas novidades? Assine o Tidal. Ao contrário da rivalidade Apple Music x Spotify, que é baseada na qualidade do layout, funcionalidades, e também o preço ou a possibilidade do consumo livre (que é importantíssimo), porque exceto pela ausência de Taylor Swift no último, os dois estão em “pé de igualdade” na disputa pelo consumidor. Isso é lutar contra a pirataria e incentivar o consumidor a ouvir música de forma paga, mas tendo o mesmo catálogo. Não é forçar o consumidor (principalmente em tempos de internet onde ninguém quer ser forçado a nada) a assinar determinado serviço porque “só no Tidal temos esse artista”, artista esse que retirou todo o catálogo da concorrência, retirando o poder de escolha do ouvinte.

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