A difícil busca de Kendrick Lamar por paz interior e igualdade em “To Pimp a Butterfly”

Cover CD Kendrick Lamar To Pimp a ButterflyI remembered you was conflicted
Misusing your influence, sometimes I did the same
Abusing my power full of resentment
Resentment that turned into a deep depression
Found myself screamin’ in the hotel room
I didn’t wanna self destruct
The evils of Lucy was all around me
So I went runnin’ for answers
Until I came home

Quando ouvi o “good kid, m.A.A.d City”, eu fiquei impressionada. Hip hop nunca foi minha área, mas todo mundo comentava sobre o álbum daquele cara de Compton, que tinha trazido um som mais calcado nas origens do gênero, com músicas mais secas sobre a pobreza, violência, sobre a realidade das ruas, tudo de uma forma contundente, direta ao ponto, com raps rápidos, batidas secas e nada easylistening. Não era um álbum pra retirar uns cinco singles pra voar direto ao top 10 – era um álbum pra você ouvir todo e ficar viajando nas letras e na inteligência do cara.

Pois esse cara, Kendrick Lamar, colocou as coisas em outro nível com seu novo álbum, “To Pimp a Butterfly”. Fazer uma continuação bem sucedida de um CD indicado ao Grammy de Álbum do Ano (e injustiçadíssimo em 2014) era difícil, mas ele simplesmente me deixou no chão. Eu imaginava alguma coisa bem interessante julgando pelo primeiro single, a brilhante e positiva “i” (que levou o Grammy, thank God!), mas nada, nada, nada parecido com o que eu ouvi agora. Nada se compara ao que esse cara mostra em 16 músicas que contam uma história tão clara e definida que não dá pra ouvir de forma aleatória. Você precisa acompanhar em ordem, entender o que aconteceu com o Kendrick após o seu grande estouro, como ele lida com seus problemas pessoais e como ele se vê no mundo, como homem negro, como artista, como portador de uma mensagem, como alguém com fé.

Por isso, a resenha de hoje não será track-by-track, como sempre faço, e será mais uma análise mais perceptiva, mais de uma ouvinte, e pode não ter alguns momentos meio lógicos, mas ouça o álbum depois (está no Spotify) e compreenda.

As músicas interligadas são um toque genial. O fade-out não é pra dar pulos na música; está contido dentro da canção, para trocar o humor ou até mesmo indicar o featuring. Mas funciona muito bem, musicalmente falando. As canções realmente estão interligadas liricamente (e através dos samples) de uma maneira muito forte – tanto que esses versos que iniciam a resenha vão sendo descortinados em sequências que explicam o sentimento do Kendrick diante da vida. A gente consegue perceber como ele foi lidando com a fama e o sucesso, em como esses sentimentos de “eu agora sou o cara do hip hop” acaba afetando sua própria saúde mental, levando-o a lidar com a depressão (que ele fala sofrer com isso desde a adolescência em “i”). É como se tudo o que ele ganhou e conseguiu não fosse exatamente algo bom (todo o dinheiro, a respeitabilidade, as mulheres), e sim fosse um peso que nem voltando pra casa, encarando os amigos e suas origens, ele teria como superar. Você percebe como a sanidade dele começa a ser afetada nas canções “Institutionalized”, “These Walls”, “u” e “Alright” (não se esquecendo de que em “King Kuntya” o último verso começa a sequência que eu coloquei lá em cima). Aliás, em “u”, há um trecho em que a voz dele tá embargada, como se ele tivesse chorando durante a gravação. É pesado, e você sente essa dor.

Kendrick redescobre o equilíbrio ao encontrar a fé, encontrando Deus, após lidar com as tentações (“For Sale” é meio isso), tanto que em alguns versos e músicas (como em “Momma”) ele vai se colocando como esse filho que se perde e só se encontra voltando pra casa. Mas o filho pródigo encontra um problema muito maior: e então ele passa a lidar com problemas externos, como o racismo que ganhou uma nova leva de situações extremas pós-morte de Trayvor Martin (Ferguson, Nova York) e acaba se impondo como homem negro com consciência de que existe uma guerra lá fora, e é necessário tomar uma posição – e a posição que ele toma é interessantíssima: ao mesmo tempo em que Kendrick pede união, sabe que existe uma chance de respeito entre negros e brancos nos EUA (a gente pode estender isso pra cá), sabe que através do amor as barreiras são quebradas (como em “Complexion (A Zulu Love)”; ele simplesmente diz que sabe que os outros o odeiam por ele ser negro, ainda o consideram inferior, e quer saber? Ele quer mais que todo mundo se foda.

(agora, se você pegar os comentários no vídeo da música e prestar atenção na letra, vai perceber que Kendrick faz uma crítica ao fato de os próprios negros estão brigando entre si – por isso ele diz “I’m the biggest hypocrite of 2015” – porque ao mesmo tempo em que ele mostra que a sociedade racista o odeia por ele ser negro; os próprios negros estão se matando com as brigas de gangues e não respeitam uns aos outros – é uma lógica beeeem polêmica, porque você pode levar à conclusão do “respeite-se para ser respeitado” no sentido moral do “seja um bom garoto para que os brancos deem ok pra você” ou pode levar à conclusão do “pare de atingir seu irmão, porque isso nos derrota diante deles”. São duas interpretações, cabe a você saber o que o Kendrick realmente pretende aqui)

Por fim, Kendrick está em paz com a mente (“i” é um hino de autoaceitação, mas também de autoaceitação para ter forças e enfrentar o que há pela frente) mas também está pronto para a luta – e para isso, participa de uma entrevista creepy com um sample do 2Pac em “Mortal Man”, que encerra o álbum de uma forma genial.

E genial é a palavra certa para descrever “To Pimp A Butterfly” – todas essas ideias, essas sensações, as reflexões e sofrimentos do rapper estão embaladas por produções sofisticadas, com inspiração no soul e no jazz, com samples muito bem usados. Aquela batida seca e noventista do “good Kid…” pode deixar de lado. A elegância das melodias é notável, e faz um contraponto incrível às letras, tanto as mais pessoais quanto as mais sociais.

Eu ainda estou meio perdida com o CD, sério. Eu ainda preciso ouvir inúmeras vezes, captar as sensações, pegar de novo as letras, porque estou me sentindo além do que eu senti quando ouvi o “good Kid…”: com esse, eu amei pelo choque, pelas letras, pela dureza, por ser um grito na minha mente; com o “To Pimp A Butterfly”, eu fui navegando nesse oceano de incertezas, de sofrimento, de evolução, de empoderamento, e não tem como sair intacta dessa jornada. Ainda foi um grito, mas… Sinceramente, eu sempre vejo os rappers muito invictos, muito intocáveis; nesse álbum, eu me vi pensando em mandar uma cartinha pro Kendrick perguntando se ele está bem. Eu me vi pensando muito na realidade daqui ao ouvir as observações dele sobre a questão racial, sobre o ódio existente quando o negro consegue ascender e isso não é aceito porque o negro sempre tem que ser visto pela sociedade racista como um inferior, ainda como animal, como escravo. Essa dor, essa raiva que passa por ele e por todos nós mesmo que não percebamos. E como a percepção dele é tão on point.

2015 mal começou, mas pra mim, esse já é o álbum do ano. Existem várias formas de captar o espírito do tempo num álbum, seja com uma produção atual, seja com músicas que resistem à barreira cronológica, seja com a união entre música e mensagem, de uma forma que nos afete a alma.

“To Pimp A Butterfly” pra mim é essa união. E não sei que álbum esse ano vai chegar perto desse trabalho de genialidade.

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