As linhas borradas dos samples

Se tem uma coisa que é mais comum que feuds na música pop é o uso dos samples. O sampling é o ato de usar uma parte de uma música (normalmente o instrumental) e utilizá-la para fazer outra música. Claro que dando os devidos créditos ao cantor/compositor original.

Normalmente, a gente encontra os samples no hip hop, mas algumas músicas pop famosas já se utilizaram desse recurso na construção de suas canções, tanto que muitas vezes, você acaba ouvindo uma música e percebendo que já a ouviu em algum lugar. Ou então achando que artista x plagiou alguma canção desconhecida e ninguém informou isso até agora.

Foi o que aconteceu comigo quando ouvi “Blurred Lines” do Robin Thicke pela primeira vez: eu achei que tinha sample de “Got To Give It Up”, do Marvin Gaye, e fiquei realmente surpresa quando soube que a composição não incluía os créditos do Gaye – ou seja, era apenas uma música parecida. Quando a família do Marvin colocou Pharrell e Thicke na justiça, tentando provar que a música era plágio, não me senti enganada – as duas músicas eram parecidas. Por isso, quando você sentir que “já ouviu aquela música antes” e achar que alguém está sampleando/plagiando um artista anterior, não tenha medo em procurar saber (ou desconfiar) sobre a canção.

E como a decisão já foi tomada nos EUA – declarando que “Blurred Lines” realmente tinha plagiado “Got to Give it Up” e que tanto Robin Thicke quanto Pharrell devem pagar uma soma milionária à família de Gaye, achei interessante fazer um post aqui sobre melodias e batidas emprestadas de forma honesta dos artistas originais – os samples. No caso, samples curiosos e não tão conhecidos de músicas que vocês amam, odeiam ou amam odiar (ou odeiam amar, tudo vale).

De Brenda Russell a Ariana Grande (passando por Thalia e Big Pun)

Todo mundo conhece “The Way”, o single que colocou o mundo pop de olho naquela menina pequena com voz de diva consagrada (eu juro que na primeira ouvida, achava que era Mariah Carey) – o primeiro single do debut da Ariana Grande, “Yours Truly”, era a throwback-ish “The Way”, um pop/R&B que lembrava o melhor dos anos 90, uma letra cativante, um featuring inspirado de Mac Miller e a voz da Arianinha mostrando que não tinha chegado pra brincadeira.

O fato que a música tem algo de especial – dois samples, para ser mais específica, sendo que um deles bebe da mesma fonte que “The Way”. Vamos falar da irmã – uma faixa hip hop dos anos 90 (mais precisamente 1998) chamada “Still Not A Player”, do rapper Big Pun, que tem a mesma base de pianinho insistente, só que num tempo mais rápido (aliás, que música ótima!). A música, que era um remix de uma faixa do próprio rapper, “I’m Not A Player”, também é cheia de interpolações (quando o artista pega partes de uma melodia, com a letra da música, e regrava com a própria voz, ao invés de samplear) e tem uma pegada bem menos inocente que a irmã mais nova “The Way”.

O fato é que as duas músicas são filhas de uma mesma canção – “A Little Bit of Love“, da americana Brenda Russell (que vocês devem conhecer pela balada pop sofrida “Piano in The Dark”) – uma música que começa com a já clássica sequência no piano que segue por toda a faixa. A música é parte de seu primeiro álbum solo, de 1979, e se você ainda não teve a curiosidade de conhecer a faixa-mãe das canções que eu listei anteriormente, é só dar play e aproveitar a viagem. É a cara dos anos 70, mas tem um frescor delicioso – o que explica a utilização quase que ostensiva a cada década de seu instrumental.

Mas antes de prosseguirmos, como não esquecer do terceiro filhote de “A Little Bit of Love”? Quando Thalía, reina latina, decidiu investir na carreira musical nos Estados Unidos cantando em inglês em 2003, abriu os trabalhos com “I Want You”, uma faixa meio pop, meio R&B, meio urban e meio “algo que Jennifer Lopez teria gravado” que, se não é uma obra-prima, faz parte da memória afetiva de muita gente (incluindo a minha). A diferença entre o uso do sample da Brenda Russell aqui e nos outros dois casos é que o tom do instrumental é um pouco mais grave, além de ser usado com um tempo um pouco mais acelerado que no caso do Big Pun, mas nada que o pianinho indefectível não ofereça a sensação de familiaridade.


 

O que Chicago e Pitbull tem em comum?

Chicago é uma banda americana de rock que flutuou por estilos como jazz rock, soft rock, pop rock e baladas românticas corta-pulsos. Vocês devem conhecer os trabalhos desses rapazes por “If You Leave Me Now”, “Hard To Say I’m Sorry” ou “You’re The Inspiration” (mas sugiro que ouçam pérolas mais early como “25 or 6 to 4“, “Saturday in The Park” e “Does Anybody Really Know What Time It Is?“), no entanto, acredito que não conheçam uma faixa mais puxada para o disco, pertencente ao álbum “Chicago 13”, de 1979: “Street Player“:

Você não conheceu esse naipe de metais de algum lugar? Assim que ouvi essa música pela primeira vez, pulei da cadeira porque sabia de onde vinha, mas não tinha ideia de onde tinha escutado… Até ter a certeza do reconhecimento – Pitbull. Isso mesmo, o PITBULL. O Mr. Worldwide tinha sampleado “Street Player”, de um álbum obscuro e mal-recebido do Chicago, para a música que o catapultou ao sucesso, “I Know You Want Me“. Como você já deve saber, aquele dance-hip hop latino com a letra bem sem vergonha e o break safado que a gente odeia dizer mas dançou horrores em 2009.

Mas “I Know You Want Me” não bebeu apenas da fonte do Chicago para se tornar a música que é. A faixa do Pitbull é o mesmo caso de “The Way” – tem em sua lista de samples uma música chamada “The Bomb! (These Sounds Fall into My Mind)”, do The Bucketheads, de 1995 (e que foi um grande sucesso na Inglaterra naquele ano). Eles usaram não apenas o naipe de metais, como um trecho da música e a pegada mais dançante é óbvia aqui.

E o caldeirão continua! Se os caras do Chicago não ficaram ricos na época em que “Street Player” foi lançada, aposto que depois desses anos todos ganharam seus quinhões só pelo sample dessa música – afinal de contas, o ingrediente final para “I Know You Want Me” se tornar essa loucura latina foi a contribuição dada pela música “75, Brazil Street”, uma música dance com um instrumental beeem parecido com o single do Pitbull, de Nicola Fasano vs Pat Rich. A música também pega emprestado do Chicago o naipe de metais que agora, você nunca mais vai confundir de tanto que deve ter ouvido. 😉


Rihanna, Ginuwine, New Order, Michael Jackson, Avril Lavigne…

O último álbum da rainha de Barbados, “Unapologetic” (2012) trazia em sua tracklist uma das músicas mais legais da carreira da RiRi, “Jump“. Meio dubstep meio urban, mostrava os vocais da Rihanna de uma forma que a gente já está acostumado – aquele jeito meio entediado, meio sexy, que ela mostrou em outros momentos. A música é uma delícia, uma das melhores do álbum, com um pré-refrão sensacional, o break quebração e o featuring não-creditado do Kanye West que parece estar louco pra explodir.

Mas opa! Esse pré-refrão não é estranho! Quem acompanhou a produção do Una ou ouviu o álbum e viu algo suspeito na música, não se preocupe, é isso mesmo: Rihanna sampleou o refrão de “Pony“, clássico da sacanagem eternizado na voz de Ginuwine, cantor de R&B que estourou em 1996 com essa música, o debut single de sua carreira (imagina só!). A música é um pouco mais safada que “Jump” (na verdade bem mais – a faixa da Rihanna mistura sexo com discussão de relação; já o Ginuwine quer ir mesmo para os “finalmente”), e se você ainda não conhece “Pony”, sugiro que ouça um verdadeiro clássico do R&B dos anos 90.

As diferenças entre o uso de “Pony” em “Jump” e a música original é que na faixa da Rihanna, o refrão tem um tempo mais acelerado, além do tom da Rihanna ser mais baixo na canção. Ela também não usa o “horny” (“If you want it let’s do it” em “Jump”; enquanto em “Pony” é If your horny, Let’s do it”), mas o resto dos versos do refrão está quase intacto.

Aliás, Rihanna não é uma estranha a samples. Durante sua carreira, parte dos seus sucessos teve na construção das músicas, uso de samples – que deram um frescor a mais em suas canções. Um dos exemplos mais notórios foi o uso da batida de “Tainted Love” (cover que o Soft Cell fez em 1981 de uma faixa da Gloria Jones) no primeiro #1 da barbadiana, “S.O.S” (a propósito, um sample bem usado).

A diferença aqui continua sendo no tempo: em “S.O.S”, apesar de ter permanecido a pegada oitentista da canção, foi acentuado o caráter dance-pop da canção. O tempo das duas músicas é praticamente o mesmo. Se ainda não conhece “Tainted Love”, pode dar play!

Já em “Good Girl Gone Bad”, em dois singles da RiRi, temos presença de samples: um em “Shut Up and Drive”, um pop/rockzinho bem inofensivo que foi o segundo single do álbum e não conseguiu repetir o massivo sucesso de “Umbrella”. A música é bem despretensiosa e divertidinha, mas não era para ser o segundo single do CD, após o smash que foi a trilha dos guarda-chuvas.

“Shut Up and Drive” pega emprestado elementos de “Blue Monday”, single do New Order de 1983. Não é tão fácil captar onde estão as semelhanças entre as duas músicas, especialmente porque “Blue Monday” é beeeem sintetizada e mais eletrônica que a música da Rihanna, que tem uma pegada mais orgânica – e se pensarmos que o sample de “Tainted Love” em “S.O.S” é claríssimo, sugiro que você feche os olhos e ouça as duas músicas em partes que você logo vai perceber onde as duas se parecem (dica: os primeiros segundos de “Shut Up and Drive” 😉 )

 

Já no quarto single da Rihanna, o clássico “Don’t Stop The Music”, o sample já era classificado como épico na época do lançamento: a música pegava o trecho “Mama-say, mama-sa, ma-ma-ko-ssa” de “Wanna Be Startin’ Somethin'”, do Michael Jackson, vindo do lendário “Thriller” (1982)

Até aí tudo bem, RiRi paga MJ pelos direitos do trecho, todos estão felizes e mais um top 1o na conta, certo? ERRADO. A questão é que o famigerado “Mama-say, mama-sa, ma-ma-ko-ssa” tinha sido “sampleado” da faixa “Soul Makossa”, de 1972, do camaronês Manu Dibango. Coloquei entre aspas porque na verdade, Michael tinha pegado esse trecho da canção e colocado em “Wanna Be Startin’ Somethin'” sem a permissão do Dibango e o músico, evidentemente, processou Michael. O caso tinha sido resolvido na época de forma discreta, mas quando Rihanna pediu permissão para usar o trecho como sample de “Don’t Stop The Music”, ele não tinha informado Manu Dibango de que faria isso – ou seja, Rihanna também tinha pegado o verso sem a permissão do camaronês. Isso deu um outro processo, contra os dois artistas, e as gravadoras teriam que pagar a Manu Dibango uma boa grana pelo uso indevido.

Ou seja, quando você pedir um sample, pesquise se esse sample já não é um sample.

Aliás, você conhece “Soul Makossa”? Além de ser conhecida como a faixa do “Mama-say, mama-sa, ma-ma-ko-ssa”, essa música também é considerada uma das primeiras gravações disco da história. Ouça e confira!

 

É claro que Rihanna tem outros exemplos de uso de samples no decurso da carreira, mas eu escolhi esses por conta do sucesso de duas das faixas, para efeito de curiosidade e também pela parte controversa. (please don’t stop the music!).

Depois de tantos samples e histórias pequenas sobre músicas divertidas, intrigantes ou ao menos viciantes, fique á vontade em comentar outros tantos samples que vemos por aí, dos mais famosos aos mais surpreendentes!

 

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