Previsões para o Grammy 2015 – Álbum do Ano

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Enfim chegamos à cereja do bolo, o grande presente, o bilhete premiado! O prêmio de Álbum do Ano do Grammy é o grande momento na carreira de qualquer pessoa. É a consagração do artista por causa de um grande trabalho (Simon & Garfunkel por “Bridge over Troubled Water”, Carole King com o “Tapestry”, U2 e seu “The Joshua Tree”, Adele e o “21”), a revelação do mito (Michael Jackson e “Thriller”, Whitney Houston com a trilha sonora de “O Guarda Costas”), a chegada de um nome forte (Alanis Morrissete e seu “Jagged Little Pill”, Lauryn Hill com o “The Miseducation of Lauryn Hill”, Taylor Swift e o “Fearless”) ou mesmo o canto do cisne (o homem que ninguém chegará perto de igualar o feito, Christopher Cross e seu debut autointitulado).

Entre os cinco indicados ao prêmio principal da noite, nós podemos ter a chance de elevar um dos artistas indicados à categoria de “mito”, ou consagrar um grande sucesso – ou mesmo dar ao Grammy a famosa “safe choice”, que significa dar o prêmio a um artista mais antigo ao invés de ousar numa escolha mais em consonância com o mercado e a realidade. Primeiro, os indicados:

“Morning Phase”, Beck
“BEYONCÉ”, Beyoncé
“X”, Ed Sheeran
“G I R L”, Pharrell Williams
“In the Lonely Hour”, Sam Smith
Agora as análises (que você confere evidentemente após o pulo)

Cover CD Beck Morning Phase“Morning Phase”, Beck

O álbum do Beck talvez tenha sido a grande surpresa entre os indicados ao Grammy. Entre os prováveis nomes que ficariam no corte final, tiveram suspeitas de que o nome mais “alternativo” (com todas as aspas que o termo cabe) que entraria fossem ou o Jack White ou o Black Keys.

Mas o Beck entrou na lista, e ele é o que eu classifico como a “safe choice” para os votantes do Grammy se apoiarem.

Por quê?

Porque trata-se de um álbum que faz mais a “cara” dos votantes que não querem ousar com uma escolha mais em consonância com o mercado, e correrem o risco de serem taxados de “vendidos” ou que ” se renderam ao mercado” – coisa que alguns críticos mais tradicionais acabam enfatizando muitas vezes. O “Morning Phase” foi um álbum criticamente aclamado, de um artista sólido e cujo apelo no mercado não é o mesmo de uma Beyoncé ou Pharrell. Além do mais, é um álbum muito bem produzido, coeso em suas melodias e letras e com um estilo bem definido. Não faz o meu gênero de música, mas é inegável o quanto o CD é bom.

Totalmente escrito pelo próprio Beck, o “Morning Phase” comporta 13 músicas que passeiam pelo rock mais acústico (como em “Blue Moon”, “Blackbird Chain” e “Country Down”), quase folk (a exemplo de “Say Goodbye” e “Turn Away”) , músicas com tons reflexivos e letras que mais sugerem que traçam alguma conclusão – o que traz uma audição diferente para cada um. Algumas faixas são mais longas por causa de solos, instrumentais, que fazem com que as transições entre as músicas sejam leves e tranquilas. A base de 90% do álbum é o violão, e apesar de uma certa atmosfera etérea, você consegue ouvir e distinguir os instrumentos claramente. Além dos momentos instrumentais dentro das próprias canções, existem duas faixas totalmente instrumentais (“Cycle” e “Phase”), que continuam as transições leves que permeiam todo o álbum. E como eu disse, trata-se de um bom álbum.

Com uma vibe totalmente diferente dos outros indicados, o “Morning Phase” é muito mais uma experiência sonora metafórica que prende sua atenção durante toda a audição, e no fim você se sente ainda pensando nas letras e nas músicas. Mesmo sendo tão forte e interessante, acredito que ser indicado a Álbum do Ano é o máximo que o álbum pode chegar. Pode ser a escolha segura da academia, mas há um trabalho entre os cinco concorrentes que não foi apenas bom, teve um forte impacto entre público, crítica e indústria (não se esqueça de que o Grammy é um prêmio da indústria), um impacto incomparável e que criou uma tendência.

– E se “Morning Phase” levar? Seria um momento esquisito da premiação. Todos esperam um vencedor e aparece outro com uma proposta completamente diferente? Acho que seria um dos momentos mais anticlimáticos dos últimos anos.

Ouça “Don’t Let It Go”:

Cover CD Beyoncé BEYONCÉ“BEYONCÉ”, Beyoncé

O self-titled é o franco favorito para levar o prêmio principal da noite. Game changer da indústria, por conta do lançamento surpresa no fim de 2013, com direito a clipes para todas as músicas, todos clipes de apuro técnico, e músicas igualmente bem produzida, trouxe para o grande público uma Beyoncé madura, em todos os aspectos de sua carreira, vida familiar e música, tocando em questões como a ditadura da beleza (em “Pretty Hurts”), sexualidade (em faixas como “Partition” e a deliciosa “Rocket”), relacionamentos (“Drunk in Love”, “Jealous”, “Mine”), além do amor idealizado (em “XO”), feminismo (a já icônica “***Flawless”) e perdas pessoais (“Heaven”).

Trata-se de um álbum majoritariamente de R&B/urban e pop, com flerte num pop mais alternativo puxado pro eletrônico, como em “Haunted”, o R&B mais alternativo de “Superpower”, o funk oitentista de “Blow” (com Pharrell deixando seu melhor pro álbum alheio), mas mesmo com esses flertes e essas brincadeiras com outros gêneros, Yoncé não sai de sua identidade como cantora e artista, construindo no processo de “BEYONCÉ” um álbum extremamente redondo e coeso. Você tem faixas fortíssimas, extremamente bem produzidas e excelentes, ao mesmo tempo em que elas não foram feitas para hitar de forma crossover. Elas tem um potencial de certa forma restrito ao top 10, como “Drunk In Love” mostrou apenas com o live do Grammy. Importante ressaltar que neste álbum, ela vende um álbum completo (desconsiderando aqui os vídeos que servem como um apoio de luxo às canções, até melhorando a fruição de algumas delas), um trabalho completo, sem fillers desnecessários, sem músicas pra-encher-CD e promovendo uma experiência completa do som que ela apresenta, onde Beyoncé alcança sua maturidade como artista – não apenas musicalmente falando, mas fazendo de seu trabalho algo que perpassa a arena da música e seja discutido em outras esferas.

Como ignorar o efeito que “***Flawless” e o discurso da Chimamanda Ngozi Adiche tiveram nas rodas de discussão sobre o papel da mulher e o feminismo? Ou a própria questão levantada por “Pretty Hurts” e como a própria Beyoncé (exemplo de mulher bela, sensual, confortável com o próprio corpo) é vítima dessa busca pela beleza perfeita? Ou a polêmica em torno do trecho do rap de “Drunk In Love” com a infeliz referência a Ike Turner? Muito complicado o Grammy ignorar esses aspectos, que ressoaram por 2014 e ainda ressoam neste início de 2015.

Mas voltando à questão musical, a maturidade da Beyoncé musicalmente é notável – eu confesso que não sou uma grande fã dos trabalhos anteriores da Bey, principalmente por considerar que existem singles maravilhosos metidos em álbuns irregulares (com o “B-Day” sendo terrível nesse aspecto, uma produção muito boa, funkeada, nervosa, a serviço de um dos álbuns muito complicados de lidar liricamente e com o vocal exagerado da Beyoncé durante a execução). É visível o quanto ela buscou essa coesão, esse equilíbrio entre o que ela queria passar como artista e o que ela mostrou ao público de fato – e ouvindo o “4” em retrospectiva, percebemos que ali ela tentou buscar essa coesão, mas ainda não tinha maturidade suficiente para lançar (um álbum de muitas baladas e midtempos, que se torna cansativo no final da execução. Minha faixa preferida é a que ela está menos pretensiosa e mais solta, se entregando ao “cafona” sem medo de ser feliz – “Best Thing I Never Had”). Acredito que a Beyoncé precisava dessas experiências anteriores, desses erros, para entregar o que ela precisava agora com o self-titled: um álbum que talvez não tenha os singles brilhantes com #1 na Billboard por semanas, mas com faixas que tem uma interligação tão forte, transições tão naturais, tanto entre as músicas quanto dentro das músicas, que você ouve o álbum (que é longo, com músicas longas) e nem sente o tempo passar.

Acho que o Grammy deve entregar o prêmio a Beyoncé para coroar um equilíbrio raro entre música + mensagem, que hoje coloca a Beyoncé a poucos passos de virar um “mito” de sua geração.

– E se o “BEYONCÉ” não levar? Acho que o Grammy terá que lidar com sérios problemas de confiança nos próximos anos.

Ouça “Partition”:

X_cover“X”, Ed Sheeran

Eu já falei no post sobre Álbum Pop sobre as qualidades e defeitos do “X” (lê-se multiply) – a unicidade do som, a coesão das músicas, a produção bacana, os singles competentes, mas entremeados por músicas esquecíveis. E aqui reside a pergunta principal dessa análise: “por que o ‘X’ foi indicado ao principal prêmio da noite?”

Primeiro, vamos recapitular os elementos positivos (que colocaram o Ed Sheeran lá na categoria de Álbum Pop e tiveram influência, creio, na inclusão dele aqui): o som acústico, com base no violão (como em “Tenerife Sea”, “One” e “I’m a Mess”), o adicional R&B mais upbeat, com inspiração clara no hip hop, principalmente em canções que misturam trechos cantados com outros com “rapping” (a exemplo de “Sing”, “Don’t”, “The Man”). Outro aspecto do som do Ed Sheeran é que ele é essencialmente singer-songwriter (o que o Grammy adora), e suas músicas tem um certo apelo crossover, com músicas sobre relacionamentos, break-ups, assim como algumas questões mais pessoais como a própria carreira.

Além dos elementos musicais que fortalecem a presença do Ed, existe o fator “Sucesso”: ele colocou músicas no top 10, com grandes possibilidades de conseguir um #1 (com o hino dos casamentos “Thinking Out Loud”, disparada a melhor faixa do álbum e uma das melhores do pop no ano passado), além de boa recepção por parte da crítica e apoio do público. Está na crista da onda, hypado com o público e já pode ser considerado um dos nomes masculinos do ano na música pop (que é tão carente de solo male acts). Mas ainda repito: o “X” não tem força para ser um álbum que possa ter sido indicado para ´”Álbum do Ano” – pelos motivos que reitero: apesar de um álbum redondo e coeso na sua musicalidade, influências e letras, em qualidade superior para se equiparar ou concorrer de igual para igual com os outros indicados o CD está um passo atrás. Enquanto o Beck consegue passear em seu álbum com força, com um conceito que dispensa músicas-feitas-para-ser-single, e Beyoncé consegue unir suas ideias com a música num álbum com todas as músicas sendo excelentes (mesmo que nem todas estejam prontas para ser hits), Ed Sheeran cai num problema de muitos álbuns pop: tem boas músicas que foram lançadas como single, perdidas em meio a um álbum de canções esquecíveis, e sem força para resistirem ao teste do tempo.

– E se o “X” levar? Seria outro momento anticlimático da premiação. O CD não merecia sequer essa indicação a Álbum do Ano.

Ouça “Sing”:

Cover CD G I R L Pharrel Williams“G I R L”, Pharrell Williams

O homem de 2013 está de volta com um álbum indicado ao prêmio principal da noite, o funkeado “G I R L”, mas Pharrell e seu chapéu estão também indicados em dois outros álbuns, já que suas contribuições nos álbuns da Beyoncé (“Blow”) e no do Ed Sheeran (“Sing”) podem lhe dar um Grammy por tabela.

Empurrado pelo monster hit massivo viral que encheu nosso saco durante 2013 e 2014, “Happy”, o “G I R L” foi uma escolha estranha dos votantes para ser indicado a Álbum do Ano. Entre tantos indicados e tantos álbuns bem sucedidos, Pharrell entrou aqui pela força do próprio nome e dos feitos do ano anterior, porque como álbum, o seu segundo como artista solo tem algumas falhas que o afastam do gramofone dourado.

Em primeiro lugar, a sensação de datado: se você ouviu “Blurred Lines”, “#GETITRIGHT” ou qualquer outra produção do Pharrell em 2013, vai captar rapidinho a essência do “G I R L”: um compilado de canções R&B com pé fortíssimo numa disco, funk e dance, com inspiração nos anos 70 ( como em “Marilyn Monroe”), com muitos falsetes, sussurros e letras repletas de sexo e sexualidade (em quase todas as faixas, mas destaco “Hunter”, “Gush”, “Brand New” e “It Girl”). Apesar de alguns momentos inspirados, e algumas quebras bacanas de expectativa (a exemplo de “Lost Queen”, que é mais R&B/urban puxadinho pro soul com esse coralzinho de fundo, com direito a uns tamborzinhos e uma hidden track, “Freq”, mais slowtempo e sensual), a impressão que se dá é de que estamos ouvindo a mesma música em looping. As faixas são boas? São. O clima é empolgante? É. Mas a sensação de repetição passa por todo o álbum.

Além disso, dá pra perceber que a ideia aqui era fazer algum tipo de ode à imagem da mulher, ou à presença da mulher, mas apenas em duas canções podemos perceber essa intenção (“Marilyn Monroe e mais claramente em “Know Who You Are”); de resto, são um emaranhado de canções falando sobre o mesmo assunto e com as mesmas batidas. É visível o esforço em compilar um trabalho coeso e interessante por parte do Pharrell, mas no fim, a sensação é de que essas músicas estariam melhores na voz de outra pessoa que na dele. Ou seja, talvez o homem do chapéu não tenha nascido mesmo para ser um superstar.

– E se o “G I R L” levar? qualquer resultado que não seja a vitória da Beyoncé em Álbum do Ano seria um momento bizarro por parte do Grammy.

P.S.: o que cargas d’água “Happy” está fazendo nesse CD?

Ouça “Come Get It Bae”:

Cover CD Sam Smith In the Lonely Hour“In the Lonely Hour”, Sam Smith

Se existe um álbum que pode assustar na corrida pelo gramofone de Álbum do Ano é este. Sam Smith é o artista que melhor elabora a ideia de “consagração de um artista por um bom trabalho” por conta do excelente desempenho do seu debut “In The Lonely Hour” e todo o hype em torno de sua voz, letras e experiências. É um trabalho mais sólido, igualmente coeso e equilibrado, e com letras e melodias mais identificadas com o grande público que, por exemplo, o trabalho da Beyoncé, que ressoa claramente entre o público feminino. Parte da crítica e dos votantes do Grammy também confiam no taco do Sam, já que ele tem indicações tanto em seu field quanto na categoria principal.

Como já comentado na análise de Álbum Pop, o “In The Lonely Hour” trata das paixões, decepções e vivências amorosas do cantor britânico, um dos compositores do CD, mesclando pop, R&B e soul, com midtempos visivelmente atraentes para as rádios adulto contemporâneas, mas que acabaram atraindo um grande público (evidentemente “Stay With Me”, “I’m Not The Only One” e “Leave Your Lover”). Sam consegue mesclar esse som já sólido por natureza com uma pegada mais jazzística aqui e ali (em “Lay Me Down”), além das maravilhosas baladas sofridas e destruídas (como “Not In That Way”). Dessa forma, a identificação com as histórias relatadas pelo cantor no álbum é de aceitação mais fácil e rápida, além do álbum ter uma capacidade de resistência ao tempo, por ter agregado esses gêneros num som mais adulto, que pode ser ouvido por pessoas de todas as idades, em diferentes momentos da vida.

É esse impacto direto nos ouvidos e nos sentimentos de quem escuta o “In The Lonely Hour”, aliado ao sucesso comercial dos singles, parte das críticas terem sido positivas e o apoio da Academia – nunca se esqueça, Sam Smith tem “Stay With Me” em Canção e Gravação; de todos os indicados a Álbum do Ano, ele é o único que concorre no General Field – que me fazem acreditar que esse é o britânico que pode ameaçar a noite da Beyoncé. Reitero que o impacto do trabalho do Sam, e todo o hype em torno de suas aparições e apresentações (ele vai cantar perfeitamente mais uma vez? vai nos emocionar outra vez?), combinado com esse caráter mais atemporal do seu álbum, assim como a solidez e a simplicidade do álbum, fazem do debut do Sam um candidato irresistível para ouvidos mais conservadores da Academia, que desejam uma escolha mais “moderna”, só que em consonância com o mercado e o público.

Por isso, não ficaria surpreso se o Grammy chocasse as bolsas de apostas dando o prêmio de Álbum do Ano para o Sam.

– E se o “In The Lonely Hour” levar? Olha, eu adoro o “In The Lonely Hour”, mas em outro momento, outro contexto, seria o vencedor ideal. O timing veio com algum atraso, e apesar de não ser uma surpresa ser o CD ganhar, seria uma mensagem contraditória por parte da indústria (se arriscar ou não, para trazer a obra ideal para o público?)

Ouça “I’m Not The Only One”:

E você, o que acha dos indicados a Álbum do Ano?

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2 comentários sobre “Previsões para o Grammy 2015 – Álbum do Ano

  1. Como você define bem em seu texto é Beyoncé x Sam Smith. Espero que a Academia se renda a maturidade e ousadia da americana. Não vejo o Sam smith como uma “Adele” do sexo masculino. Apesar do som “elegante” e elogiável do inglês, ele precisa provar ainda que merece esse elogio.
    Vamos aguardar…

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