Mark Ronson e o fôlego em Uptown Special

Cover CD Mark Ronson Uptown SpecialQuem acompanha música deve conhecer alguma coisa sobre Mark Ronson. O DJ e produtor britânico por trás do clássico “Back To Black”, da Amy Winehouse (além de trabalhos com Lily Allen, Christina Aguilera, Robbie Williams e Bruno Mars), é sempre sinônimo de mistura de várias influências em busca de um som moderno, mas com um pezinho no passado. E com o lançamento de “Uptown Special”, o foco são os anos 70.

O que ninguém – nem ele mesmo esperava, como relatado na reportagem de capa da Billboard desta semana– era que o seu novo álbum (o terceiro em sua discografia) seria tão ansiosamente esperado por causa do primeiro grande hit do ano, “Uptown Funk”, um sucesso massivo e que não dá mostras de diminuir a velocidade da dominação tão cedo. O lead-single do álbum acabou levando crítica e público a conferir o que Ronson tinha preparado para o álbum – como a participação especial do mito Stevie Wonder em duas faixas, além da contribuição do escritor vencedor do Pulitzer Michael Chabon nas músicas do CD.

Será que já podemos incluir “Uptown Special” nas listinhas futuras de melhores de 2015, ainda em Janeiro? Confira no track-by-track!

“Uptown’s First Finale” (featuring Stevie Wonder & Andrew Wyatt) – a intro do álbum é surpreendentemente etérea, com a gaitinha inconfundível do Stevie Wonder conduzindo a música, além de um verso repetido à exaustão – “Nine exits north of Las Vegas”.

“Summer Breaking” (featuring Kevin Parker) – como eu gosto de Yacht Rock (aquele soft rock levinho e inofensivo que Christopher Cross, Michael McDonald e congêneres faziam no finzinho dos anos 70/início dos 80, amei essa faixa. A atmosfera etérea e fim-de-tarde-início-de-noite continua, desta vez com um ritmo mais midtempo, riffs de guitarra ao fundo, vocalzinho levemente processado do Kevin Parker e uma letra bem bacana sobre uma garota bem perigosa.

“Feel Right” (featuring Mystikal) – a coisa começa a ficar up com Mystikal emulando seu James Brown interior numa das faixas mais cool do álbum. “Feel Right” é o rapper (sumido após temporada na prisão) falando maravilhas de si mesmo e como ele é o cara. A música é muito James Brown (com ecos fortes de “The Payback”) com direito à viradas deliciosas no meio da música. A música consegue ser tão cool que ainda tem o Bruno Mars chamando o Mystikal durante a música e entregando a bola para a próxima faixa com o “We’ll see you all uptown”, que nos leva a…

“Uptown Funk” (featuring Bruno Mars) – ao hit, o viral, o já clássico “girls hit you halleiujah” e “too hot, hot damm, call the police and the firemen”, “dont believe me just watch” e a Michelle Pfeiffer, claro. A linha de baixo, o sopro nervosíssimo – especialmente após o pré-refrão, destruindo tudo que vem pela frente, o funk setentista na veia, com um toque moderno, atual, divertido, o vocal mais áspero do Bruno, longe da pegada mais pop que ele apresenta no trabalho solo, a letra também na vibe vaidade extrema, e você tem um surpreendente hit de início de ano e, sem muitas dúvidas, um provável indicado no General Field do Grammy 2016.

“I Can’t Lose” (featuring Keyone Starr) – é hora da voz feminina do álbum mostrar a que veio, e essa faixa R&B meio synth early-80’s com direito aos solinhos discretos de guitarra, trompetes e trombones ajudando na condução da música e a voz principal é um achado. (curiosidade: Mark e Jeff Bhasker, um dos compositores da música e um dos principais compositores do álbum, descobriram a Keyonne Starr enquanto procuravam uma cantora desconhecida pelos corais de igrejas, bares e centros comunitários pelos EUA). Keyonne Starr me lembrou, na interpretação, Chaka Khan em “Ain’t Nobody” – aliás, a música parece uma versão atualizada do clássico da diva. Uma das highlights do álbum.

“Daffodils” (featuring Kevin Parker) – AI MEU DEUS ESSE COMEÇO, QUERO SER JOHN TRAVOLTA E VOLTAR PRA 1977 OUTRA VEZ. Meio pop, meio disco, um pouquinho de rock e mais uma vez o vocalzinho processado e etéreo do Kevin Parker deixam o álbum deliciosamente throwback. (aliás, o instrumental do final da faixa é sensacional. Acho que o Daft Punk do “Random Access Memories” deve estar invejando até agora) E a música, com sua letra viajadona aparentemente falando de sexo, é o segudo single promocional do álbum, com previsão de ser lançada nas rádios adulto contemporâneo em Fevereiro.

“Crack in the Pearl” (featuring Andrew Wyatt) – lembra de “Uptown’s First Finale”, e o “Nine exits north of Las Vegas”? Então, esta é a faixa que meio que “explica” a intro do álbum, contando a história de uma relação – um golpe, talvez? – que não deu certo. Vale por esse efeito de “curiosidade”.

“In Case of Fire” (featuring Jeff Bhasker) – Lembra da “garota perigosa” de “Summer Breaking”? Parece que ela voltou para “In Case Of Fire”, outra faixa meio pop, meio rock, numa seção do álbum em que já foram embora há muito tempo os instrumentos de sopro e ficaram a guitarra e os vocais processados do Jeff Bhasker. A música é bacana, meio melancólica, meio tema-de-filme-dos-anos-70, mas funciona mais como faixa que compõe o álbum do que como single separado (ou mesmo promocional)

“Leaving Los Feliz” (featuring Kevin Parker) – o rock fica mais visível aqui em “Leaving Los Feliz”, e os sintetizadores mais presentes na faixa, misturados com a guitarra meio synth. Tem ecos até meio country, que dão um charme especial à música. É outra faixa que compõe o álbum, que parece estar na metade menos inspirada por aqui.

“Heavy and Rolling” (featuring Andrew Wyatt) – confirmado: a partir de “Crack in The Pearl” o álbum fica visivelmente menos inspirado. Eu gosto bastante de “Heavy and Rolling” e sua letra que fala de amor mas também que trata de uma certa desilusão e melancolia, mas esse estilo proposto pela faixa como um todo teve melhores resultados (tanto como inspiração setentista quanto a pegada rádio Adulto Contemporânea) em “Daffodils”, que é espetacular).

“Crack in the Pearl, Pt. II” (featuring Stevie Wonder & Jeff Bhasker) – lembra da relação a três de “Crack in the Pearl” que eu não sabia se era relação ou golpe? Pois bem, finalmente temos alguma espécie de explicação sobre as duas (três) faixas, neste retorno da gaitinha do Stevie e a mistura bem realizada entre a intro e essa espécie de “interlude”. Dessas três faixas, é a melhor, mais interessante e até gostosinha de ouvir, e acredito que encerre bem o álbum, que começa brilhante e parece ir perdendo o fôlego no final.

Como eu disse durante o track-by-track do álbum, “Uptown Special” é visivelmente inspirado nos sons dos anos 70. Tem funk, tem disco, tem soft rock, tem aquele pop mais AC, e ecos dos anos 80, com direito a sintetizadores. As participações especiais são bem-vindas e a primeira metade do CD é brilhante, com todas as faixas sendo highlights (até mesmo o lead-single, que normalmente é uma faixa mais “fraca” do álbum, em comparação com o que é mostrado na totalidade do CD) e todas as faixas (até “Crack in the Pearl”) sendo impossíveis de pular. Eu particularmente acho “I Can’t Lose” maravilhosa e a voz da Keyonne deveria aparecer mais vezes no CD.

A partir de “Crack in the Pearl”, as faixas continuam muito boas e bem produzidas, mas a sensação geral é de que faltou fôlego a Ronson e aos outros compositores em sair de uma espécie de “zona de conforto” dentro do próprio álbum e explorar mais situações. É como se “Uptown Special” entrasse em banho-maria, e só saísse dele no finalzinho, em “Crack in The Pearl pt II”, fechando a história que vem contando em partes desde o início do álbum. Não que essas músicas sejam ruins – pelo contrário. As letras são ótimas e a produção é de primeira qualidade, mas parece que a animação, o tesão diminui, e a variação dos temas e gêneros não muda.

Apesar dessa metade menos inspirada do álbum, no todo “Uptown Special” é muito divertido. Tem ritmo, te faz dançar ou simplesmente fechar os olhos e relaxar ao som da música, além de trazer lembranças de uma outra época – a musicalidade dos anos 70 – de uma forma respeitosa e modernizada. Para quem curte o estilo daquela década, pode ser o álbum perfeito para começar um throwback e procurar as músicas mais marcantes do período, para estabelecer as comparações (o que eu fiz durante vários momentos da audição). E não duvido nada que apareça entre as melhores do ano no finzinho de 2015 – além de dar as caras no Grammy.

Mas claro que podia ser um pouquinho mais inspirado no terço final, né?

E você, já ouviu o novo álbum de Mark Ronson? Conte o que achou!

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