Acho que não dá pra chamar a Meghan Trainor de “One Hit Wonder” com o “Title”, hein

Cover CD Meghan Trainor TitleEra uma vez uma jovem cantora e compositora chamada Meghan Trainor que estourou com o hit viral “All About That Bass”, que chegou a oito semanas na Billboard. Logo depois, a mesma Meghan coloca no top 10 da Billboard outro grude em forma de canção, “Lips Are Movin”, e o excelente desempenho da novata acaba fazendo com que a Epic adiantasse logo o lançamento do primeiro álbum da jovem, “Title” (nove de Janeiro). “Title”, aliás, mesmo nome do EP que mostrou quatro músicas que entraram no corte final do álbum: “All About That Bass”, “Dear Future Husband”, “Close Your Eyes” e “Title”.

A grande pergunta com o lançamento do debut de Meghan é: será que com esse CD, ela consegue tirar a pecha de one (maybe two) hit wonder e se fortalecer como uma artista relevante para brigar nessa selva que é o mundo pop? Bem, a julgar pelo trabalho que ela apresentou em “Title”, ela e a Epic já podem decidir quais serão os próximos singles, porque trata-se de um debut forte na sua simplicidade e identidade musical marcadíssima: uma mistura de doo-wop dos anos 50, pop sessentista e R&B do mesmo período, com um vocal característico e letras diretas, divertidas e que criam um cenário vintage que funciona bem com a persona da Meghan.

Confira mais depois do pulo!

“The Best Part”: a interlude bem bacaninha, só na acapella, com uma mensagem clara: essas músicas do álbum são as músicas que a Meghan traz na mente, numa vibe “retrô”, meio doo-wop que vai permear todo o CD.

“All About That Bass”: todo mundo já conhece a faixa de auto-afirmação e empoderamento das gordinhas. É o smash hit e faz bem em estar logo no começo do álbum.

“Dear Future Husband”: a “Dark Horse” do álbum (porque a música já estava no top 70 mesmo antes do lançamento do segundo single, “Lips Are Movin” – DFH, como já falado, é uma das faixas do EP da moça, também chamado “Title”) é o provável terceiro single do CD. E tomara que seja. A faixa é deliciosíssima, na mesma pegada doo-wop/R&B iniciozinho dos anos 60. Quem curte early Motown, como as Marvelettes, por exemplo, vai achar essa faixa uma coisa linda. A letra é uma graça: a Meghan vai listando coisas que seu futuro marido tem que fazer/ser para tê-la para sempre ao seu lado. Tem cheiro de que viraliza fácil quando for lançada de forma apropriada.

“Close Your Eyes”: a velocidade diminui um pouco nessa mid-tempo bem pop anos 60. Outra baladinha influenciada pelo doo-wop, tem uma letra de autoajuda bem fofa e simples, direta ao ponto. Assim como as outras músicas, é uma composição dela e do parceiro Kevin Kadish, e também é mais conhecida pelo público por também ser parte do EP.

“3AM”: é mais moderninha, mas o pianinho que acompanha a música e o vocal deliciosamente “antigo” da Meghan (além dos backing vocals meio discretos) ajudam a criar um clima bacana pra canção, que é menos radio-friendly, mas é super bacana: Meghan está triste por causa de um ex-boy, que aparentemente está em outra e ela não consegue esquecê-lo. Dá até pra imaginar o cenário da canção, e em como essa composição – como todas as outras do álbum, são tão diretas mas conseguem chegar direto ao que acredito serem o público alvo desse CD: as adolescentes e meninas saindo da adolescência e entrando na idade adulta.

“Like I’m Going To Lose You” (featuring John Legend): essa vai ser single, né? A novata tá com tudo com um featuring do John Legend, e a música merece esse dueto. Trata-se de uma balada simples, agradável, desta vez com um solo doce de violão, com estrutura parecida com “Close Your Eyes”, mas menos retrô, conta uma história de amor em que os dois vão vivendo esse romance sem pensar no amanhã. É outra canção em que a gente imagina um cenário, e mostra algo muito interessante num álbum de um artista novato: uma coesão fortíssima entre as músicas e as letras e uma identidade musical bem definida pra alguém num debut.

“Bang Dem Sticks”: ainda tô tentando lidar com essa faixa. Eu sinceramente preciso lidar com essa faixa. Isso é que eu chamo de um hit, porque se DFH é “Dark Horse”, BDS é um smash in waiting! A faixa é sensacional por todos os motivos pensados e impensados: o foco maior em instrumentos de sopro, um break faux-quebração delicioso, Meghan fazendo rap melhor que a Iggy Azalea 😉 (e ela já mostrou suas habilidades em AATB e LAM) além da letra menos “romance adolescente”. Lembra um pouco, bem de longe, “Bang Bang”, mas onde “Bang Bang” é mais fim dos anos 60, “Bang Dem Sticks” é mais anos 2000, mais “eu queria ser urban quebração”. Pra ser single já!

“Walkashame”: Meghan volta pros anos 60, mais precisamente para o doo-wop, com uma letra bobíssima sobre ter bebido demais e ficar de ressaca depois. Mas o vocal divertido, o arranjo animado, o rapzinho e o refrão são tão legais que você coloca a faixa como a sua biografia numa postagem no Facebook. Aliás, uma coisa bacana sobre a Meghan é a interpretação das músicas – como ela consegue ser debochada numa música, apaixonada em outra e bem-humorada numa terceira.

“Title”: não vai ser fácil conquistar Meghan Trainor, e você vai ter que ralar. Ela quer que você dê aquele “título” (o de namorada, claro!) e vai dizer isso de um jeitinho debochado nessa faixa divertidíssima e upbeat – que como o título (sem trocadilhos) já diz – também era parte do EP. Além da influência óbvia do doo-wop, a faixa também tem inspiração num ritmo caribenho chamado soca (que faz parte das influências da Meghan), o que torna a música mais bacana, com aquela percussão discreta nas viradas. Outra que pode ser single fácil.

“What If I”: Meghan diminui a velocidade com a linda “What If I”, aquela baladinha pra dançar colado na festinha, tomar milk shake junto na lanchonete anos 50 e andar de mãozinha dada na rua. Mais uma canção em que a gente imagina claramente o cenário, é uma canção de amor que podia bem terminar o CD em grande estilo, com esse ar de saudade que a música evoca. Mas ainda não acabou, porque tem…

“Lips Are Movin”: o segundo single top 10 que conhecemos, viciante, parecida em tudo com “All About That Bass” e o vocal debochado e divertido da Meghan que já é uma marca registrada do álbum. Apesar da posição até cruel da faixa dentro da tracklist – podia ter ficado fácil após “Title”, é um bom encerramento da versão standard do álbum.

Da Deluxe “No Good For You” é bem mais influenciada pelos ritmos caribenhos, assim como “Mr. Almost”. Já “My Selfish Heart” e “Credit” são mais anos 50 ainda que as faixas do standard.

Como eu tinha dito durante o texto, é impressionante como o CD é coeso e claro em sua proposta: é Meghan cantando sobre coisas simples sobre amor, autoafirmação, relacionamentos e cotidiano de uma forma divertida, despretensiosa e até saudosa, já que a inspiração das melodias é o doo-wop dos anos 50/60, o pop da mesma época e o R&B. Até o uso desses gêneros, mais inocentes e inofensivos, aliado a letras igualmente simples, diretas, consegue chegar facilmente no público desse CD: são jovens garotas, adolescentes ou na transição da adolescência para a idade adulta, que com certeza podem se sentir identificadas com letras divertidas como “Dear Future Husband”, “Walkashame” ou “Lips Are Movin”. Quem está naquela fase da paixão ou sofrendo por amor, pode curtir “3AM”, “Like I’m Going To Lose You” ou “What If I” (que eu acho a mais sofisticada das baladinhas do álbum). Enfim, “Title” atende a várias situações, e principalmente, consegue ter uma relação de proximidade etária entre a cantora-compositora e o seu público-alvo.

As comparações com Katy Perry no início da carreira – que eu sempre faço – são válidas, tanto em como surgiram na mídia, com primeiros singles que viralizaram, foram #1 e tiveram sua dose de polêmica (“I Kissed a Girl” surpreendeu muita gente na época porque nem todas as cantoras cantavam músicas sobre o dia em que beijaram uma garota) e segundos singles que chegaram ao top 10 e foram grandes sucessos. A diferença entre Katy e Meghan é a idade em que as duas surgiram: Meghan com 20 anos, e Katy com 23 (considerando todo o histórico de tentativas de estouro da Katy antes). Três anos que podem fazer uma diferença curiosa, se as letras da Katy no seu primeiro álbum, apesar de também mirarem um público mais jovem, eram mais “saidinhas” que a simplicidade e o caráter mais “retrô” da Meghan.

Mas no geral, “Title” é um álbum que merece várias belas ouvidas. A coerência do CD me deixa impressionada a cada ouvida, principalmente em se tratando de uma artista tão jovem. As letras e as melodias são bem trabalhadas e a produção não se sobrepõe à voz da Meghan. Não se deixe enganar pela fama de “one hit wonder”. Esse pode ser o álbum do grande estouro de Meghan Trainor em 2015, levando ela  a voos mais altos.

É o que eu espero, sinceramente.

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