Grammy 2015 – Indicados a Gravação do Ano

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A premiação de “Gravação do Ano” faz parte do Big Four, as quatro categorias “nobres” do Grammy (junto com Canção do Ano, Artista Revelação e Álbum do Ano). Os vencedores desse prêmio são o artista, o produtor e o engenheiro/mixador de som – ou seja, o foco desse prêmio são os aspectos de produção da música. Normalmente os grandes sucessos do ano entram aqui – assim como músicas icônicas na cabeça de qualquer pessoa que já tenha ouvido uma canção na vida.

Entre os vencedores antigos mais famosos estão Simon & Garfunkel, com “Mrs. Robinson (aquela mesma do filme “A Primeira Noite de um Homem”), Roberta Flack com “Killing Me Softly With His Song”, The Eagles com “Hotel California”, Billy Joel com “Just The Way You Are” (aquela que muita gente conhece na voz do Barry White) e Christopher-fucking-Cross com “Sailing”.

Entre a turminha mais recente, Amy Winehouse levou com “Rehab”, Lady Antebellum foi premiado com “Need You Now”, Adele se consagrou com “Rolling In The Deep” e este ano, “Get Lucky” do Daft Punk foi a escolhida.

Para a edição de 2015 do Grammy, os indicados para levar o prêmio vêm de uma lista muito diversa. Muita gente esperava a versão live de “Happy”, ou “Let It Go” ou “Drunk In Love” no corte final. Mas os votantes optaram por mesclar os principais hits do ano com entradas de última hora que deixaram a categoria com a sensação de “mas o que essas intrusas estão fazendo aqui”, ao mesmo tempo que fecha o favoritismo com uma atração vinda lá da terra da Rainha.

Primeiro, os indicados
Iggy Azalea featuring Charli XCX, “Fancy”
Sia, “Chandelier”
Sam Smith, “Stay With Me” (Darkchild Version)
Taylor Swift, “Shake It Off”
Meghan Trainor, “All About That Bass”
Agora as análises… Iggy Azalea featuring Charli XCX, “Fancy”

(saudades anos 90)

O hit do verão americano entra aqui na categoria na cota “hit do verão”, o que é absolutamente natural, já que o Grammy observa não apenas a qualidade das faixas como também o impacto delas no mercado. “Fancy” é um desses exemplos, seguindo indicados famosos como “Blurred Lines” (2014), “Poker Face” (2010) e “Umbrella” (2008), que foram sucessos estrondosos e cavaram uma indicaçãozinha. Apesar dos pesares (em relação à faixa do Robin Thicke), é inegável que essas faixas são muito boas e bem produzidas. E esse é o grande mérito de “Fancy” nesta categoria.

Produzida pelo The Invisible Men com uma batida mais equilibrada, mais minimalista e com uma leve inspiração nos anos 90 (o que se torna mais bacana ainda com o clipe inspirado em “As Patricinhas de Beverly Hills”), “Fancy” é uma música pop com pegada hip hop e um apelo universal, que chama atenção não apenas do público mais jovem, como os mais velhos. A faixa, em resumo, é muito forte, e os versos da Iggy + refrão e bridge da Charli XCX são bem colocados. Seria uma candidata forte ao prêmio, se não fosse o que ela é: um hit de verão que foi indicado ao Grammy. E além do fato de ter outras músicas muito mais fortes (mesmo com impacto menor na popsfera) que podem levar o prêmio, a Iggy ainda tem um detalhe que pode minar não apenas as chances dela nesta categoria, como quaisquer outras chances de prêmio: a questão racial em torno das acusações de “apropriação” da cultura hip hop e do rap em torno da australiana, que já tiveram sua sorte de problemas no último Grammy, com a vitória de Macklemore & Ryan Lewis nas categorias de rap, concorrendo com Kendrick Lamar, com um álbum muito melhor. Por isso, não acredito numa vitória da Iggy por aqui.

Sia, “Chandelier”

(Sia deixou o melhor pra ela, espertinha)

Quem imaginava que um dos grandes sucessos de 2014 seria uma faixa cujas performances eram com a artista cantando de costas para a câmera? “Chandelier”, da Sia, deu espaço para a cantora e compositora australiana mostrar seu trabalho solo, conhecido já pelo público europeu e de quem acompanhava outros artistas do pop com uma repercussão mais localizada, só que agora para os consumidores americanos. A Sia já tinha uma visibilidade por compor faixas para artistas de peso, como Beyoncé, Rihanna, Britney Spears e Christina Aguilera, além de ser a voz por trás de faixas como “Titanium” (do David Guetta) e “Wild Ones” (do FloRida), mas agora, com o “1000 Forms Of Fear”, ela mostrou que guardou o melhor pra si mesma.

E “Chandelier” é sensacional. Uma faixa pop com tons épicos e um refrão cantado em agudos e plenos pulmões, não se parece com nenhum outro trabalho que Sia tenha entregue para outras artistas. A construção da música (produzida pelo queridinho das cantoras de pop/rock Greg Kurstin e por Jesse Shatkin) é curiosa, porque aparentemente, não é uma música tão radio-friendly, mas ela tem uma evolução – começa com pouca percussão, meio reggae, pra logo crescer e explodir no potente refrão. Eu não imaginava que a canção teria tanto impacto – inicialmente, achei que “Chandelier” acabaria sucumbindo por não ser de tão fácil digestão (e a faixa se mostrou grower), e o clipe poderia deixar a faixa menos acessível (pelo contrário, o vídeo viralizou e se tornou um dos memes do ano, junto com a insistência de Sia em se apresentar de costas).

Eu adoraria cravar “Chandelier” como vencedora. É uma típica vencedora de Grammy: é uma faixa forte, equilibrada, bem produzida, é única em seu grupo – não dá pra comparar com outras indicadas – mas tem um problema. Um problema chamado Sam Smith. O grande porém da vitória da Sia aqui não é o sucesso ou o impacto (a faixa foi top 10 e já sabemos bem como a música, em especial o clipe, tiveram um impacto na popsfera), mas o hype em torno do Sam, que vem sendo altíssimo; o sucesso de outras faixas do britânico além de “Stay With Me”, e após “Chandelier”, ela não teve outros singles de tanto destaque quanto esse. Tanto que o “1000 Forms of Fear” não foi indicado a Álbum Pop e o “In the Lonely Hour” foi (incluindo a Álbum do Ano). Acho que aqui, os votantes quiseram destacar uma grande música, mas apenas isso. Creio que a australiana sairá de mãos abanando no Grammy 2015. Uma pena.

Sam Smith, “Stay With Me” (Darkchild Version)

(o clipe escolhido foi do original mesmo)

Em primeiro lugar, por que cargas d’água a versão indicada ao Grammy foi a do Darkchild? Qual a diferença entre a que conhecemos e essa?

A versão do Darkchild tem alguns detalhes mais sutis, como a ênfase no coral gospel, especialmente no último refrão, além das palmas e um certo groove mais soul que na versão original. É uma escolha interessante, que só potencializa as qualidades da canção, uma das melhores lançadas no ano. “Stay With Me” é aquela midtempo quase baladinha, com acompanhamento gospel que dá uma espécie de positividade ao lamento melancólico do Sam em torno de uma relação amorosa em que, aparentemente, as necessidades são mais fortes que os sentimentos. A faixa é a mais comercial do “In The Lonely Hour”, cd de estreia do britânico, que é coeso na sua proposta e tem em “Stay With Me” um resumo do álbum: fazer música pop com referências soul/R&B, puxado para um blue-eyed soul.

Como eu disse, o resumo do álbum está contido na faixa concorrente a “Gravação do Ano”, que consegue atingir diversos públicos pela produção polida, orgânica, quase acústica, com o coral incorporado à música como se estivesse no mesmo local onde a voz do Sam foi gravada. E a interpretação dele está no ponto, equilibrando sofrimento e resignação sem ser melodramático – e a voz exótica, empostada, com falsetes e agudos bem soul, estão colocados com parcimônia na canção. É a provável vencedora do Grammy, pela qualidade da música, da produção (que ficou a cargo de Jimmy Napes e Steve Fitzmaurice), pelo apelo universal, que atrai diversos públicos, classes e idades, pelo equilíbrio entre pop, R&B e soul, e pelo impacto comercial da música. Top 10 na Billboard, com apresentações em programas importantes, tem covers espalhados pela net e saciou a necessidade do público em ter um cantor masculino com as mesmas características da Adele: músicas autobiográficas, com pé no R&B e tom melancólico. Não é por nada que Sam Smith é a “Adele de calças” e pode repetir o feito da conterrânea aqui em Gravação do Ano.

Taylor Swift, “Shake It Off”

(ainda confundo Taylor Swift com Avril Lavigne ouvindo essa música)

Antes de iniciar essa análise, eu não gosto de “Shake It Off”. Tudo bem, a música cresceu em mim porque é catchy, comercial e tem um refrão grudentíssimo, mas a música não tem nada de Taylor Swift – parece alguma demo que o Max Martin tinha sobrando da Avril Lavigne e passou pra quem tinha mais interesse. Além disso, no “1989” ela está deslocadíssima em meio aos sintetizadores e ao espírito oitentista do álbum. Mas a música tem o DNA pop incrustado nela, fazer o quê. “and I just gonna shake shake shake” *dançando enquanto escreve*

E por ser um hit massivo, ter esse DNA pop e a produção do homem do ano Max Martin (sorry Pharrell) com direito ao saxofone emprestado de “Problem” (que tinha sido emprestado de “Talk Dirty”, a minha injustiçada preferida do Big Four), e com a marca Taylor Swift, uma das mulheres do ano, na frente, “Shake It Off” está aqui. É inegável que a música é um estouro: pop purinho, com o bridge delicioso de cheerleader que torna a faixa super jovial (pra não dizer juvenil) e o saxofone dando um tempero todo especial, tem a assinatura de quem sabe o que as pessoas querem e o que tá bombando no momento (tanto Max Martin quanto Shellback, outro hitmaker, são os produtores da faixa), e ainda ajudou Taylor a ganhar mais um #1 e mais atenção ainda para o lançamento do “1989”. Acredito que a inclusão aqui de “Shake It Off” tem relação com a entrada de Katy Perry e “Roar” na última edição do Grammy: compor espaço para a futura indicação do álbum completo e de outras faixas (acredito eu a ótima “Blank Space”), já que o “1989” foi consagrado pela crítica e público e bagunçou a indústria – e como você sabe, o Grammy é um prêmio da indústria. A inclusão da Taylor aqui é quase um teaser do que ela fará ano que vem. (mas, sinceramente, não podia ter entrado “Let It Go”? 😥 )

Meghan Trainor, “All About That Bass”

(Sempre senti uma vibe Katy Perry na Meghan: hit viral + segundo single hit…)

Meghan Trainor é a outra adição de última hora entre os indicados a Gravação do Ano. Sabe que eu entendo o Grammy aqui, mais que em outros momentos, até mesmo mais que a Swift? Trata-se de um hit viral, com um arranjo grudento, retrô (o ritmo aqui é o doo-wop, famoso no final dos anos 50), com uma garota cantando e “versando” com uma voz igualmente vintage. A Meghan já tinha composto para outros artistas anteriormente e “All About That Bass” não era pra que ela cantasse, e sim para outras pessoas – até alguém dizer à jovem: “por que você não canta essa música?”.

E funcionou muito bem – esse vocal meio debochado e divertido (que lembra muito a vibe da Katy Perry, especialmente no início da carreira), junto com a produção simples e on point de Kevin Kadish e da própria Meghan (adoro as backing vocals que parecem vindas de um grupo vocal da Motown dos anos 60) deixam a faixa com sabor de guilty pleasure. É uma ótima música pop, feita pra dançar e descartar no fim do verão, e essa é a característica mais notável de “All About That Bass”. Fazer a música sobreviver ao verão e continuar até fevereiro, no dia das premiações do Grammy, pode pôr na conta dos votantes. No fim das contas, a faixa está aqui pelas mesmas razões de “Fancy”: é um hit massivo, teve impacto na cultura pop (foi até acusado de ser anti-feminista e cometer bullying com as magrinhas) e ainda abriu espaço para a Meghan reciclar o próprio hit com outro hit, a igualmente grudenta “Lips Are Movin'”. Mas se Meghan sobreviver a esse verão, acredito que o novo álbum da loirinha, o “Title”, pode dar as caras em 2016… E ter entrado pra “compor”, assim como Taylor Swift.

CONCLUSÕES

Quem vai ganhar: “Stay With Me”. Foi mais hit, Sam Smith está com o hype nas alturas e ele tem indicações no resto do Big Four, além de Pop Solo e Álbum Pop. Ele está mais “prestigiado” pela bancada.

Pra quem eu torço: Se “Stay With Me” levar, vou ficar contente. Mas se “Chandelier” levar, vou ficar muito feliz. Adoro essa música.

O “dark horse” da vez: se Meghan Trainor subir naquele palco eu realmente vou ficar surpresa. Num mundo alternativo, a Taylor Swift poderia levar pela força do nome, e não ficaria chocada com a Iggy. Mas tem muitas coisas além-música que depõem contra ela.

Na próxima análise, é hora de falar de Melhor Performance Pop Solo, onde a trucagem não será suficiente para levar um Grammy. Até logo!

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