A idade atrapalha o sucesso? Um estudo de caso estrelando Fergie e Gwen Stefani

FergieNum 2014 dominado pela surpresa do álbum surpresa-evento da Beyoncé e por Taylor Swift e seu “1989”, o espaço para as outras divas (ou aspirantes a diva) pop é pequeno. Ou você lança singles catchy de seu álbum repleto de potenciais hits (oi Ariana) ou aproveita para sugar tudo o que pode de seu álbum meeiro (oi Katy) ou simplesmente vê tudo de uma janelinha, enquanto espera o momento de voltar a brilhar (inclua aqui a diva que veio à mente). Ou lança um material bem inferior ao que te consagrou no passado – o que é um mau movimento se você é uma cantora icônica da década passada que ficou de molho nesses anos todos enquanto a caravana pop passava.

Gwen Stefani e Fergie são dois dos nomes mais importantes do pop Gwen Stefaninos anos 2000. Ambas sassy, divertidas, inteligentes e com boa noção de cultura pop, ambas vindas de grupos bem sucedidos em seus gêneros (Gwen, vocalista do No Doubt, que tocava uma mistura de pop e rock; Fergie, membro mais conhecido do Black Eyed Peas, grupo de hip hop que estourou mesmo na metade da década) e com álbuns bem sucedidos e que pautaram muito do que o pop passou a realizar em seguida. As duas voltaram depois para seus grupos de origem, com desempenhos diferentes em seus trabalhos, mas a mosquinha da carreira solo voltou a picar, e a dupla de loiras preparou seu comeback.

… Você sabia que Fergie e Gwen Stefani lançaram singles?

Os trabalhos de ambas estão oscilando no iTunes, entre modesto e flop. Nas rádios, a situação não muda muito – pior, as duas penam para ao menos tentarem subir na audiência. E tanto Fergie quanto Gwen cantaram em programas de impacto – Fergie Ferg cantou o lead single “L.A. Love (La La)” no American Music Awards; e Gwen performou o single “Spark The Fire” no The Voice, onde é jurada.

Mas por que os singles das duas não vem acontecendo? Será que é por conta das músicas? Ou a idade estaria afetando o consumo do trabalho delas?

Esse é o ponto da discussão que o blog vai colocar hoje: como a idade de Fergie e Gwen Stefani está afetando a recepção de seus trabalhos por parte do público médio americano.

Porque essa resistência aos trabalhos de mulheres maduras dentro da música pop não vem de 2014…

Antes de mais nada, os dois singles de Gwen e Fergie não fogem muito do que elas fizeram no passado. Fergie, por exemplo, seguiu num urban-pop bem pensado com as tendências atuais. “L.A. Love” tem um refrão grudento, e uma batida moderninha. Tudo certinho, se a música não tivesse um sabor de dejà vú – Tinashe fez “2 On” e assim que a gente ouve os primeiros acordes de “L.A. Love”, já sente que a melodia é conhecida (pode ser culpa da “criatividade” do produtor, DJ Mustard). E a letra é fraca.

mas o clipe é bem legal (aliás, Fergie não envelhece não?)

Já Gwen optou por um pop mais puro, com umas batidas de percussão, meio tribais, e um vocalzinho processado no lead single “Baby Don’t Lie”. A letra, pelo menos, é mais inspirada. No geral, a música tem a cara da Gwen, mas pra um comeback solo, num ano tão disputado musicalmente – e pra alguém que tem um programa com altos índices de audiência como o “The Voice” pra ajudar na promoção – não é uma escolha forte.

difícil querer hitar com um vídeo sem graça desses

 Já o segundo single, “Spark The Fire”, tem produção do Midas Pharrell. Mas nem Pharrell pode resolver todos os problemas de um single. STF é uma versão pop e atualizada de um dos singles mais icônicos (se não o mais) da Gwen: “Hollaback Girl”. Nada contra tentar jogar com coisas conhecidas (a própria Fergie está fazendo isso com o seu lead single) mas a reciclagem tem que ser boa o suficiente pra ninguém comparar as duas canções. E “Spark The Fire” não é boa.

(toda a era vai ter esse estilo “hipster”, né)

Enquanto “L.A. Love” tem desempenho modesto nos charts, os dois singles da Gwen simplesmente não aconteceram. Podemos dizer que é culpa das músicas que não são fortes o suficiente para o nome – e o que se espera – das artistas, mas há um elemento complicador nessa história: a idade das duas.

Fergie tem 39 anos e Gwen Stefani 45.

Mas como isso interfere no desempenho delas dentro do mercado?

Não é novidade que a cada mês, sempre surge “the next big thing”: alguma jovem artista que surge como novo talento, que pode estourar e se manter ou nunca acontecer. Normalmente, elas surgem cedo: Britney Spears surgiu pro mundo com 17 anos; Christina Aguilera com 19. Beyoncé surgiu com as Destiny’s Child com 16. Rihanna começou a ser notada com 17 (Katy Perry, que estourou com 24 anos, e Lady Gaga, com 22, são exceções à regra, pela própria construção da carreira das duas: primeiro como compositoras e depois como artistas principais). E com as estrelas vindas de séries infantis, que são atrizes-e-cantoras, essa média de idade diminui consideravelmente.

Se essas cantoras conseguirem passar por fases de flop, problemas pessoais e polêmicas, podem chegar aos 30 anos com uma carreira bem definida. Mas após os 30, a situação se problematiza. Ser mãe nessa indústria traz vários predicados – e pré-conceitos em relação a como a cantora deve lidar com a própria imagem diante do público (coisa que os homens não precisam se preocupar: o mercado masculino de música pop é bem menos disputado, com poucos nomes de destaque, e o machismo da sociedade interfere até aqui: ninguém exige um “comportamento de homem casado” do Justin Timberlake, né?). Além disso, a chegada cada vez mais rápida de artistas que “substituam” as que estouravam quando eram mais novas, combinado com a renovação do público de música pop (os adolescentes se tornam adultos e muitos param de consumir determinado artista; e as crianças se tornam adolescentes e não se sentem identificados com aquela cantora), fazem com que a luta para hitar após os 30 seja mais árdua.

E após os 40? Os 50? Por isso, vamos mostrar alguns exemplos…

Cases de sucesso/fracasso

MadonnaClaro que o primeiro nome que vem à mente é a Madonna. A rainha do pop, com suas polêmicas, boa música e sempre se renovando, conseguiu se manter relevante, ganhando novos fãs nestes 30 anos de carreira e batendo recorde atrás de recorde por causa de suas turnês. Mas a Madge não é boba, e com 56 anos, tendo que disputar com novinhas de 22, 23 anos (ou menos), ela precisa ficar de acordo com o que está bombando. Talvez trabalhar com Timbaland quando ele era o Midas ou fazer um pop mais puxado pro EDM quando o estilo já estava saturando pode ser ruim para os fãs mais xiitas, que sentem falta da Madonna trazendo nomes desconhecidos para a popsfera, mas ela precisa se manter relevante e pronta pra pelo menos, disputar espaço nos charts com condições de fazer barulho – e manter os shows lotados.

última aparição na Billboard Hot 100: 2012, “Give Me All Your Luvin'”, #10


???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????Hoje, aos 75 anos, ela está aposentada, mas nos anos 80, aos 45 anos, ela protagonizou um dos comebacks mais celebrados da música: Tina Turner, a Acid Queen, surgiu como parte do Ike & Tina Turner cantando R&B, mas renasceu para o rock depois de se separar do marido-monstro-abusivo e ficar no limbo durante algum tempo. E com o “Private Dancer”, o álbum que catapultou Tina ao cargo de deusa, mostrou que nunca é tarde para um grande retorno. Por conta do impacto do álbum, ela conseguiu três prêmios Grammy (incluindo Gravação do Ano para “What’s Love Got To Do With It”) e conquistou novos fãs com um som mais rock ‘n roll e bem atual para a época.

última aparição na Billboard Hot 100: 1996, “In Your Wildest Dreams” (com Barry White) #101 (Bubbling Under)


CherO que dizer de Cher, a Deusa do Pop, que se vestiu de tantos jeitos, passou por tantas fases e ainda conseguiu ter um hit single número 1 nas paradas depois dos 50? A carreira musical de Cher começou ao lado do marido Sonny Bono, ainda nos anos 60, e no período em que cantava junto com o esposo, tinha uma carreira solo. Após a separação e um período de declínio, também enveredou pelo rock (não sem antes lançar um álbum mais disco) e conseguiu nos anos 90 um hit que a eternizou para uma geração bem mais nova: “Believe”, faixa dance que popularizou o autotune (milhares de artistas pop agradecem à Santa Cher todos os dias) e a colocou em primeiro lugar nas paradas, aos 52 anos de idade. Até hoje, é dela a marca de cantora solo mais velha a ter um hit número 1 na Billboard. Atualmente, Cher se dedica às suas turnês intermináveis e lançou um álbum recentemente, o “Closer To The Truth”, que ficou em terceiro lugar na parada de álbuns da Billboard.

última aparição na Billboard Hot 100: 2002, “Song For The Lonely” #85


Mariah CareyMariah Carey,atualmente com 44 anos, é um caso curioso. Exigimos muito de seus desempenhos porque Mimi é uma das maiores hitmakers da história. Ela tem 18 #1 na Billboard, 16 semanas em #1 com um único single (um recorde insuperável até hoje) e se manteve relevante durante duas décadas. Atualmente, os desempenhos dos álbuns estão cada vez mais complicados, com o flop monumental do “Me. I Am Mariah… The Elusive Chanteuse” (que é incrível, já resenhei até), mas ela tem uma história de viradas que supera qualquer lógica – já que, após uma década inteira de sucesso ininterrupto, Mariah, já separada do marido Tommy Mottola, saiu da Sony em direção à Virgin, com um contrato milionário. Daí veio “Glitter”, o fracasso, os problemas emocionais e o limbo nas rádios. Depois, o recomeço na Island Def Jam e finalmente o comeback modernoso e R&B/urban de “The Emancipation Of Mimi”, onde Mariah se reapresentou a um público bem mais novo do que a ouvia dez anos antes e retomou a carreira com mais #1 e mais prestígio. Seu último #1 foi com “Touch My Body”, do “E=MC²” (2008), mostrando que, aos 38 anos na época, ainda tinha muita lenha pra queimar e muito a fazer contra as novinhas.

última aparição na Billboard Hot 100: 2014, “You’re Mine (Eternal)” #88


Jennifer LopezO outro curioso caso (não de Benjamin Button) é o de Jennifer Lopez. Com 45 anos (mas corpo e rosto de uma mulher de 30), J.Lo é uma ameaça tripla: canta, dança e representa. Praticamente uma brand, surgiu como cantora enquanto ascendia como atriz em Hollywood. Abriu espaço para outras latinas no mainstream no fim da década de 90, e passou boa parte da década seguinte jogando hit atrás de hit nas rádios. Mas após um noivado super público com Ben Affleck e o próprio desgaste da persona “cantora de urban pop dançarina com rapper de featuring” (posto ocupado com perfeição – e melhores resultados – por uma Beyoncé bem antes de ser BEYONCÉ), J.Lo se reinventou em 2011 com um hit e uma parceria com o Mr. Worldwide Pitbull: “On The Floor”, um eletropop com sample famoso e bem dentro do que estava hitando na época, e que trouxe Jennifer de volta à cena, e juntamente com o posto de jurada do American Idol, acabou transformando a artista num nome mais conhecido para uma nova geração. Apesar de hoje, o “A.K.A”, seu mais recente álbum, ter flopado oceanos, Jennifer ainda se mantém relevante – retornará a cadeira de jurada do Idol na próxima temporada e sempre tem uma carta na manga musical – como o remix de “Booty” com Iggy Azalea, que a colocou novamente na rota da cultura pop.

última aparição na Billboard Hot 100: 2014, “Booty” (com Iggy Azalea) #18

Todos esses exemplos que eu listei aqui são de artistas que conseguiram se manter relevantes e hitar após os 30. Todas elas renovaram o próprio som, seja por necessidade de encontrar um novo público, ou pra se manterem no topo, ou mesmo por desgaste da carreira. Mas elas fizeram mudanças no som, buscando estar conectadas com o que estava bombando no momento e captando o espírito do público-alvo de sua música. Além disso, nenhuma delas fugiu de sua identidade como artista. Madonna continua sendo pop, assim como J.Lo já tinha mostrado um material mais dance no início da carreira. Tina fez uma mudança radical porque, entre outras razões, ela precisava se desligar da imagem antiga que tinha, relacionada ao marido que a tinha abusado e perseguido durante anos. Mas nunca deixou de ser a performer energética e a voz potente.

Mas principalmente, todas as artistas citadas fizeram BOA música. Pra disputar com as novinhas que tinham mais espaço nas rádios, nos clipes da MTV e mais proximidade com um público consumidor de mesma idade, elas precisaram fazer boa música, que também fosse identificada com esse público. Não adiantou nada fazer música datada, ruim e não-comercial, senão elas cairiam num limbo sem volta. E não se esqueça: a cada verão, surgiam versões “mais novas” dessas cantoras para tomar o cetro delas. E as rádios são muito mais resistentes às cantoras mais velhas por n razões. Muitas desconhecidas. Mas acho que um dos motivos pode estar aí: por que continuar tocando músicas de uma cantora “desgastada”, tanto pela diminuição do público quanto pelo tempo de carreira, se tenho uma versão mais nova com fãs mais desesperados, loucos para consumir tudo dessa cantora jovem?

Para Fergie e Gwen, o segredo para hitar numa popsfera muito mais disputada e com um público consumidor mais sabido, com mais opções de consumo que as rádios ou o iTunes, é tentar conversar com esse público. Manter a característica inerente de seu som, mas tentar adequar essa personalidade e equilibrá-la às necessidades dos ouvintes. Não estou falando de se vender à primeira modinha e arranjar um remix com a Iggy ou um featuring da Ariana Grande, e sim perceber o que os ventos pop estão apontando e seguir junto, mas fazendo um som que remeta seja à Fergie, seja à Gwen; mas principalmente, sendo música BOA. De verdade.

Porque esses singles lançados passam longe de serem bacanas…


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