COMBÃO de singles [Outubro ’19]

Antes de começarmos a falar de fato sobre Grammy (afinal de contas, no momento em que este post for publicado eu já devo ter comentado sobre os indicados), hora daquele resumão de lançamentos que ocorreram mês passado, e que provavelmente podem entrar no Grammy 2021 (ou não, a depender da situação de carreira dos envolvidos)

(ah, e sobre o Grammy, os vídeos voltarão sim, como eu tinha comentado no post dos indicados! 😊 Vou fazer um esforço para compensar meus sumiços – que tem diversas explicações, como trabalho, projetos de escrita literária, crises de ansiedade, picos de estresse etc – e gravar os vídeos além de + um podcast com explicações que considero plausíveis sobre os indicados, conversas sobre os charts e papo sobre kpop)

Sem mais, vamos lá – em ordem cronológica:

Harry Styles, “Lights Up” (lançado em 11/10)

Harry Styles - Lights Up.png

Se eu te disser que no começo, não entendi bem como funcionava essa música e achado bem sem graça, vocês me perdoam? Então, eu tinha me acostumado com o rockstar anos 70 neojurássico do debut, por isso a vibe psicodélica indie tinha meio que me surpreendido; mas numa segunda ouvida, a faixa é mais que forte, é extremamente forte e a cara do Harry. Ele encontrou um nicho bastante particular, que ele consegue tornar radiofônico e pop, e funciona bem pra caralho – nicho esse que outros acts masculinos pop da mesma faixa de idade não estão fazendo, o que torna a trajetória de carreira dele desde a saída do One Direction uma das mais curiosas de acompanhar.

(aliás, nem dá pra lembrar, apenas se você for fã e não apenas um ouvinte comum, que algum dia Harry foi membro do One Direction. Parece um artista completamente diferente pra mim)

A música tem umas quebras de expectativa que numa rádio top 40 podem causar alguma estranheza, mas em outros charts (como o adulto ou o rock) funcionam perfeitamente. Ao mesmo tempo, “Lights Up“, com seu refrão feito em coro, versos crípticos e universais e um clima de elevação e liberdade, é a faixa perfeita para ser cantada em festivais.

Ou seja, o rockstar continua vivo.

Katy Perry - Harleys in Hawaii.png

Katy Perry, “Harleys in Hawaii” (lançado em 16/10)

Lembram-se de que eu tinha feito há muito tempo atrás um vídeo sobre a carreira da Katy Perry, onde eu não conseguia ver bem qual seria a função ou espaço dela dentro da landscape musical do momento? Então, como boa parte desses problemas estão relacionados ao descolamento da imagem dela em relação à música que ela fazia/faz, neste momento, a impressão que eu tenho é de que Katy está tentando colar novamente a imagem com um pop mais puro, e uma imagem mais divertida, mas sem ser paródica. Dessa forma, surgem os melhores materiais que ela lançou desde a parte boa do “Prism”, o que se inclui “Harleys in Hawaii“, uma faixa deliciosa e que poderia facilmente ser lançada no verão como aquele single perfeito para um fim de tarde com o love.

Entretanto, há um sério problema com essa música: ok que ela poderia lançar no verão, mas dentro de um contexto maior, de uma era, em que Katy já teria lançado um CD, um conceito, uma ideia sobre o que ela pretende fazer musicalmente. HiH parece a faixa terceiro single de um álbum já lançado, que todo mundo conhece as músicas e a era de coração (como foi no tempo de “Teenage Dream”, por exemplo). Nesta era (se assim podemos chamar) da Katy, todas as faixas parecem jogadas ao vento, o que é um desperdício para um material tão bacana (especialmente “Never Really Over”, um petardo pop que merecia uma sorte BEM, mas BEM melhor).

Eu não sei, sinceramente, qual o próximo passo da Katy – se teremos álbum, se será um compilado de canções lançadas, se estamos ouvindo um EP ou teremos uma grande surpresa – mas sinceramente eu não sei como qualquer estratégia de carreira se aplica especialmente no pop playlist de hoje (ou seja, música que serve mais como background)… Ou o pop que ela faz ficou em 2010.

Aí gera minha pergunta: será que Katy Perry perdeu o bonde da história com o “Witness”?

Selena Gomez, “Lose You To Love Me” (lançado em 23/10)

Selena Gomez - Lose You to Love Me.png

Finalmente Selena Gomez conseguiu seu #1 na Billboard com uma balada sentimental, evocativa e cheia de mensagens subliminares sobre um certo ex e sua atual esposa, após um período de carreira solo em que Selena se metamorfoseou de uma ex-Disney Star buscando uma carreira solo no pop para alguém com um material absolutamente intrigante e perfeito para a voz que ela tem.

Entretanto, o minimalismo que sempre foi bastante presente em seus materiais a partir do “Revival”, tanto vocal quanto em batidas, produções e a “vibe” do material se perde um pouquinho em “Lose You to Love Me“, o single que chegou ao topo da Billboard. Co-escrito pela dupla Julia Michaels e Justin Tranter, a música tem todas as características do som que os fez os hitmakers mais procurados há alguns anos. Entretanto, mesmo com o frescor da letra com caráter pessoal, as batidas marcadas, a escolha da interpretação e a produção, mesmo com um ar mais épico no refrão, GRITAM 2017. A balada não é exatamente groundbreaking (exceto pela letra) e tudo me parece meio datado.

O #1, provavelmente, foi graças ao buzz do retorno e o apoio da fã-base, porque os predicados da canção não exatamente colaboram para este resultado tão bom.

… E a propósito, o segundo single (surpresa), “Look at me Now“, consegue ser menos interessante ainda que LYTLM. Confesso que, enquanto ouvia o som pop eletrônico da música, senti falta da Selena do “Revival” e da que lançou “Bad Liar” (INJUSTIÇADA!!!) e “Fetish”, que funcionava num mundo diferente de outras peers. Fico contente que ela está buscando uma linha mais pop direta ao ponto, sem genre-bending, fiel às suas raízes, mas a música é tão… anticlimática…

Dua Lipa – “Don’t Start Now” (lançada em 31/10)

Dua Lipa - Don't Start Now.png

O primeiro single do segundo álbum da cantora britânica é bastante distinto do que ela já vinha trabalhando nos singles do debut – que eram mais pop, sem tantas influências (exceto por “New Rules”) – mas é audível que “Don’t Start Now” é uma continuidade do som que já estávamos ouvindo da Dua em seus featurings (“One Kiss” e “Electricity”, que eram mais dance, house, anos 90). Entretanto, o novo single busca referências mais anos 70, mais disco (ouça o pré-refrão e o instrumentalzinho curto após o segundo refrão), conversando com essa pegada dance anos 90 – e o encontro é um SMASH!

Eu amei a música, e não apenas porque eu gosto de música disco hahaha mas porque Dua funciona nesse som – ela tem a voz de diva dance, ela funciona nisso, tem o volume, tem algo que chama atenção e uma certa ironia na interpretação (bem britânico) que fica bem melhor do que fazer a coitada dar uma de estrela pop no padrão anos 2000 ao qual estamos acostumados. A faixa é gostosa, vibrante, não sei se o pré-refrão ou o refrão são a melhor parte da música, mas sinceramente? Uma das melhores coisas lançadas neste fim de ano, e se a próxima sonoridade pop brincar com house 90’s e disco 70’s, pode me chamar que tô feliz.


Agora é com vocês: quais foram as faixas favoritas de vocês neste último período? O que recomendam de lançamentos do pop neste fim de ano? Fiquem à vontade para comentar!

e não é que o Grammy 2020 fez algo bem interessante?

Antes de mais nada, essa foi a minha reação quando vi que tinham saído os indicados, após terminar uma reunião:

Além disso, toda a discussão que eu tinha colocado nas previsões sobre puristas e integrados pode ser considerada PULVERIZADA após a decisão da Academia em indicar todo mundo que realmente interessa neste período e colocar os novatos na frente, deixando os consagrados com indicações de legado e nicho. Fãs da Taylor e da Beyoncé que me perdoem, mas a conversa cultural foi levantada por Billie, Lizzo, Ariana (que pode ser considerada a indicação sobrevivente do pop “tradicional”) além do Lil Nas X, cujas indicações me deixaram surpresa, especialmente por sua trajetória ser uma das mais intrigantes da indústria neste período de elegibilidade.

Evidentemente eu vou me estender mais nos vídeos que farei sobre os indicados ao Grammy 2020 que acontece em 26/01/2020 e nos replies aos comentários de vocês, mas o que interessa é: 2019 é um ano de transição. A década ainda não acabou, mas culturalmente estamos em mudança de conceitos, ideias, rotinas, e mesmo com a “ausência” do gênero que comanda as ações no mercado americano (rap) nas categorias principais, ele está nas origens, inspirações e apreciações/apropriações dos principais indicados – mesmo assim, vamos considerar que Lizzo é a rapper indicada aqui, certo?

Além disso, por ser um período de transição, não dá para determinar o fim ou o começo de nada – mas sim um momento em que os gêneros tradicionais ainda buscam espaço, quem mistura tudo parece ter se encontrado e as lendas estão numa encruzilhada entre manter a relevância, acenar para a geração Z (e a T), seguir o som já conhecido e consagrado ou procurar outros caminhos. Tudo pode acontecer… Incluindo um newcomer levar.

Vamos ver os indicados (de acordo com o pop field/general field), além de rápidas considerações sobre o que eu tinha previsto x resultado final:

POP FIELD

Pop Solo
(cheguei quase lá haha não tinha pensado Beyoncé nem nas minhas expectativas quase otimistas. Nem posso chamar de “indicação sentimental” – seria se fosse AOTY – mas a entrada dela aí deixa o coreto bagunçadíssimo)

Beyoncé – Spirit
Billie Eilish – Bad Guy
Ariana Grande – 7 rings
Lizzo – Truth Hurts
Taylor Swift – You Need To Calm Down

Pop Duo/Grupo
(minhas expectativas eram mais teen, mas que boa surpresa ver Old Town Road aqui! DESPACITO INJUSTIÇADO Não sei quem ganha, sinceramente, mas como eu conheço bem o Grammy e ele não é tão progressista como ele finge ser, sinto que Ariana leva mais um)

Ariana Grande & Social House – Boyfriend
Jonas Brothers – Sucker
Lil Nas X Featuring Billy Ray Cyrus – Old Town Road
Post Malone & Swae Lee – Sunflower
Shawn Mendes & Camila Cabello – Señorita

Pop Album
(who saw Queen B coming? Eu não, mas quase cheguei lá em outras indicações: tinha colocado Ed Sheeran como probabilidade, mas tinha pensado em Lana, que entrou no AOTY sem passar pelo field, ou seja… Na verdade, se lermos com calma essa lista, o pop não foi tão forte como se pensava este ano – não podemos chamar de retorno – e eu não garanto nada nessa categoria)

Beyoncé – The Lion King: The Gift
Billie Eilish – When We All Fall Asleep, Where Do We Go?
Ariana Grande – thank u, next
Ed Sheeran – No.6 Collaborations Project
Taylor Swift – Lover

GENERAL FIELD

Best New Artist
(eu disse a vocês que Rosalía podia entrar, e com o crescimento dela na landscape anglófona nos últimos tempos, podemos ter surpresas vindas da Espanha…)

Black Pumas
Billie Eilish
Lil Nas X
Lizzo
Maggie Rogers
ROSALÍA
Tank And The Bangas
Yola

Canção do Ano
(Esse é um grupo bem curioso, e majoritariamente feminino. Não acho que seja a volta das mulheres ao pop, mas acho que é porque estamos num ano de transição, e se você prestar atenção, são vários estilos – e não-estilos – numa lista só. A propósito, não sei como a Academia funciona com a Lana…)

Lady Gaga – Always Remember Us This Way
Tanya Tucker – Bring My Flowers Now
H.E.R. – Hard Place
Billie Eilish – Bad Guy
Taylor Swift – Lover
Lana del Rey – Norman F***ing Rockwell
Lewis Capaldi – Someone You Loved
Lizzo – Truth Hurts

Gravação do Ano
(grupo bom, grupo forte e acho que eu quase levei 80% da lista, não tinha visto H.E.R e Bon Iver chegando…)

Bon Iver – Hey, Ma
Billie Eilish – Billie Eilish
Ariana Grande – 7 rings
H.E.R. – Hard Place
Khalid – Talk
Lil Nas X Featuring Billy Ray Cyrus – Old Town Road
Lizzo – Truth Hurts
Post Malone & Swae Lee – Sunflower

*a propósito, em ROTY e SOTY, viva Atlantic Records…

Álbum do Ano
(essa lista GRITA newcomer vencendo e nem quero ver as thinkpieces)

Bon Iver – I,I
Lana Del Rey – Norman F***ing Rockwell!
Billie Eilish – When We All Fall Asleep, Where Do We Go?
Ariana Grande – thank u, next
H.E.R. – I Used To Know Her
Lil Nas X – 7
Lizzo – Cuz I Love You (Deluxe)
Vampire Weekend – Father Of The Bride

Eu vou me alongar sobre essas indicações logo, especialmente nos vídeos, mas o que posso dizer a vocês é: não faço ideia de como os jurados vão votar; e não faço ideia dos resultados. Acredito que será uma das premiações mais surpreendentes em anos, feita para consagrar um novo artista para uma nova década… Ou sedimentar conceitos mais tradicionais com artistas mais novos que tenham uma trajetória convencional, na busca por atender a um público cada vez mais apartado do Grammy.

Começo os vídeos em dezembro ainda, falando sobre Pop Solo. Quando? Em dezembro. Até logo!

Conflito de ideias no Grammy 2020 [Previsões]

Fim de década* é algo estranho – é sempre um período em que a cultura, no geral, continua fortemente influenciada pelo zeitgeist, mas mostrando alguns sinais dos tempos que virão. Na música, como parte do discurso cultural, não é diferente: a segunda parte dos anos 2010 deixou para trás a dominância eletropop e focou no crescimento e sedimentação do rap como principal gênero ouvido dentro da cultura pop americana. Entretanto, outros gêneros considerados marginais (no sentido de estarem às margens do discurso oficial), cresceram neste período e se apresentaram como novas alternativas sonoras, reflexos de um mundo cada vez mais plural (mesmo que tantas pessoas neguem essa perspectiva): a música latina – mais precisamente o reggaeton, e a popularização do kpop mostram que há um mundo criativo fora dos limites já convencionais do pop que vinha sendo feito – e jogado para escanteio – nos últimos anos.


Dentro deste contexto de óbvia transição para algo que ainda não sabemos, novos artistas, oriundos de uma geração mais nova e inquieta, tentam ultrapassar as barreiras convencionadas pela própria separação entre gêneros, e isso se tornou a válvula de sobrevivência para um pop ainda tentando se encontrar. Afinal de contas, os ícones pop (Bey, Gaga, Taylor, Rihanna) estão expandindo suas áreas de atuação, os A-Lists de fato se contam nos dedos (Ariana e…?), e quem está chegando lá? Quem tem fôlego suficiente para dar o salto e entrar no panteão pop, dominar o discurso cultural e influenciar outros artistas?

(não incluo nomes masculinos nesse discurso até porque a construção de carreira deles é tão confusa que a mesma pessoa que chama Drake de ícone pode chamar ele de A-List, ou Justin Bieber… Enfim, isso deixaremos para outro papo) 


Por isso, é importante que o Grammy observe essa futura batalha de discursos entre aqueles que chamo de “puristas” – os artistas pop que mesmo mesclando seu som com outros gêneros continuam sendo vistos e lidos como pop stars, até mesmo com uma brand bem pop; e os “integrados” (valeu Eco – peguei o nome mas o conceito não), que usam a brand pop tradicional para desconstruir a ideia de um pop star (ou rock, rap, R&B…) ou simplesmente ignoram essa ideia, visual e musicalmente. 


Depois dessa introdução (que mais parece um TCC), hora de falar do que vocês estavam esperando: o bom e velho exercício de futurologia do Grammy 2020, que neste ano será dia 26/01/2020, e por conta dessa data antecipada, o período de elegibilidade terminou um mês mais cedo para os artistas – 31/08. 

*quando eu falo “fim de década”, é apenas marcação. Eu sei que a década só termina em 2020, e mesmo assim, as influências de uma década anterior ainda prosseguem nos primeiros anos da seguinte

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O problema “Starboy” – “Lover”, Taylor Swift

Lá em 2016 eu escrevi uma resenha sobre “Starboy“, o hiperbólico quarto álbum de The Weeknd, em que eu achava o CD bem bom, mas que precisava ser menor. Considerava a duração de mais de uma hora (!) com dezoito músicas, bastante excessivo e distraído – quando as canções eram muito parecidas entre si, especialmente no meio-de-campo que quase chegava às raias do genérico. Entretanto, havia algumas gemas que poderiam ser lançadas como single, e no geral, um recut do CD com mais ou menos doze canções deixaria o álbum mais fluido.

Só que 18 músicas não foi só uma escolha artística ou do ego do cantor – esse número é uma tendência dos artistas recentemente, em busca das disputadas audições via streaming. Quanto mais faixas, mais audições, e mais tempo a pessoa passa ouvindo o CD, e mais streams você dá, aumentando a vendagem do álbum. O problema é quando você está em busca desse número mágico e esquece que precisa engajar os ouvintes – não apenas seus fãs fiéis.

E é este o meu problema com o novo da Taylor Swift, “Lover“.

Taylor Swift - Lover.png

Após um álbum que no seu melhor tem a elegância discreta de deepcuts como “Getaway Car” e o single “Delicate” e no seu pior… Melhor esquecer, Taylor decidiu dar um passo atrás – mas não num sentido ruim, e sim em sonoridade. Sai a produção pesada e all over de place de aberrações como “End Game” e entram materiais mais despretensiosos como “I Forgot You Existed”, por exemplo. O passo “atrás” se dá porque “Lover” parece uma natural continuação de “1989”, só que com mais leveza e maturidade no enfrentamento das novas situações. É como se “reputation” fosse o álbum “fora de lugar” na discografia porque não era o momento nem o lugar para ele acontecer.

(ver “Born This Way”, “Rated R”…)

A produção é bem mais chill, pop com sintetizadores, baladas synth e mais inspirações oitentistas beeem discretinhas, e no geral, as faixas variam entre o amor real e positivo que ela finalmente encontrou (após anos de relacionamentos cheios de problemas), problemas nos relacionamentos com drama (“Afterglow”) e algumas referências à ela mesma, à reputação, mas sem aquele egocentrismo bizarro do CD anterior – e sim com a autopercepção, assumindo posturas e posicionamentos. O que eu havia pensado que Taylor faria em 2017 ela entregou mais ou menos aqui – até mesmo seu entendimento de uma sociedade machista cheia de double standards (em “The Man”, que apesar de ser legal, composição usando projeção foi feita com melhores resultados em “Blank Space”, e aqui soa até clichê) – incluindo sua habilidade intrigante como contadora de histórias (“Soon You’ll Get Better”), algo que eu aprecio sempre na Taylor.

O objetivo dela não é exatamente fazer cinco mil hits, não é… Até pela notável ausência de Max Martin aqui, Taylor busca arejar com outras parcerias (apesar de Jack Antonoff ainda estar aqui como uma praga…) e o resultado é um CD bastante coeso especialmente nas primeiras cinco músicas.

Depois de “The Man”, aí entra o “problema Starboy” que eu tinha falado: muitas faixas que eu não consegui distinguir (a la trilha sonora da Riachuelo), e pra chegar nas highlights, você caminha por um meio de campo absolutamente entediante. Sem contar os primeiros singles entrincheirados no fim do álbum, não fazendo o menor sentido em relação ao resto do álbum nem em sonoridade, nem em letras.

Nisso a gente retorna à discussão no começo desse artigo: eu imagino que “Lover” foi feito para agradar quem consome música via stream, por isso as 18 faixas. Só que um álbum não é uma playlist do Spotify – ele precisa concatenar ideias de forma coesa e concisa, e se for um álbum pop, entremeando deepcuts e faixas com potencial de single. Quando você concatena ideias (✅) de forma coesa (✅) e concisa (❌) entremeando deepcuts (✅❌) e faixas com potencial de single (❌)…

Você entendeu o que eu quis dizer.

Em resumo: sim, Taylor Swift recuperou seu mojo e pode dizer que “Lover” é uma vitória após a confusão que foi a era reputation e o próprio CD. Ao mesmo tempo, eu realmente achava que seria O retorno, para sedimentar sua posição como uma das grandes estrelas pop de seu tempo, e a minha reação foi de puro tédio em vários momentos desta longa audição. O álbum venderá horrores, mas ainda espero a sensação de glória que tive ao ouvir o “1989” há uns cinco anos atrás.

E mantendo a tradição, tem RECUT DE LOVER com dez músicas!

Podcast Duas Tintas de Música #01 – Pré-VMA querendo ser relevante

Alá Marina Teixeira tentando manter o blog vivo, e sabe o que ela decide fazer? Um PODCAST, já que é menos problemático para meu notebook de sete anos de idade editar áudios do que vídeos, por isso, tomei a decisão de produzir podcasts mensais.

No programa de hoje, vou falar sobre “Motivation” e “Lover” (o single) (03:08); o top 10 da semana que passou (11:47); os indicados ao VMA que ocorre nesta segunda-feira, dia 26/08 (28:48) e um papo bacana sobre Kpop com minha amiga Shi, que acompanha há bastante tempo a cena e vai contar um pouco sobre suas impressões do kpop no VMA (01:15:51)

É só dar play e aproveitar! (p.s: esta semana tem resenha do novo álbum da Taylor)

Oi sumida! [2] New faces

Sumi mas voltei, e agora falando especificamente sobre essa dicotomia entre música pop x “fim dos gêneros” x dominância do rap no ano mais interessante em anos – 2019… Ou poderíamos chamar de 2014/2015?

Por que estou falando isso? Porque se prestarmos atenção a este período na música, foi justamente após a decadência do eletropop e o fim da disco-funk wave de 2013, foi impossível para muitos definir “o som” do momento. Era um período de transição, em que muitas coisas faziam sucesso ao mesmo tempo, enquanto os sinais da dominância do rap como gênero e principal produto cultural começavam a aparecer. Por exemplo, Fetty Wap bombou em 2015, trap começou a ficar mais popular, os virais rap chegaram ao top 10 (“Nasty Freestyle”, alguém?), o rap feminino buscou expandir suas estrelas (Iggy explodiu em 2014), Drake finalmente se tornou uma força a ser reconhecida.

Ao mesmo tempo, as grandes estrelas pop da época que sabiam construir o discurso de seu tempo chegavam ao auge (como Katy Perry, por exemplo), ou finalmente se assumiram como pop (Taylor Swift e o “1989”) – sem contar o processo de rebranding de Lady Gaga que ainda não havia começado, bem como pop stars que navegam de outra maneira no zeitgeist se tornaram ubíquos (o Lionel Richie Millennial, Bruno Mars). Já os atuais A-lists estouraram para a consciência pública justamente nestes anos, como Ariana Grande e The Weeknd. E a última grande popstar a surgir com uma formatação típica do período foi Meghan Trainor.

(eu desconsidero o fator Lorde nessa equação porque ela se intersecciona muito com a turma alternativa. Por mais que “Royals” tenha mudado o landscape para um som com vozes de menos volume e um pop mais down, eu acho que esse shift na popsfera não se deu com ela e sim com “Somebody That I Used To Know”, que exigia até mesmo que eu AUMENTASSE O VOLUME do meu celular para ouvir a faixa)

Ao mesmo tempo em que hoje não é possível indicar com evidência o que é pop de fato (tem dance? é urban-inspired? tem influência alternativa? é nostálgica?) ou mesmo o que é pop hoje, temos que levar em consideração outro fenômeno que podemos creditar sua atual forma a Drake: músicas que conversam com outros gêneros, cujo estilo é difícil de definir, e que nos leva a fenômenos como Post Malone e agora, um Lil Nas X que conseguiu fazer rock melhor do que Lil Wayne em 2009.

Naquela época as pessoas já achavam o uso excessivo do autotune uma coisa perigosa

Por isso, vamos dividir esse post da seguinte forma: o primeiro ponto é sobre o rap como produto cultural dominante, que finalmente parece estar deixando de ser um “clube do bolinha”… o que é essencial para o fortalecimento do gênero para os anos seguintes.

Nicki Minaj abriu as portas para o rap feminino brilhar no mainstream, mas a impressão que sempre tive era de que no período da sua dominância, havia uma estratégia a la Highlander quando se tratava da cena feminina:

A cada instante nascia um rapper masculino diferente, enquanto poucas femcees surgiam na mesma força – e quando estouravam, ou decaíam por material aquém e péssimas decisões de carreira dentro ou fora das redes sociais (Iggy) ou por péssimas decisões de carreira dentro das redes sociais (Azealia). No entanto, com a ascensão de Cardi B, parece que alguém (the powers to be, a indústria, quem quer que seja) percebeu que havia sim espaço para outras rappers femininas. Aos poucos, o espaço para femcees ascendentes ou artistas que não tinham espaço no mainstream até então começaram a surgir.

Dessa forma, você tem rappers sexualmente confiantes e cheias de personalidade como Megan Thee Stallion (que está na capa da prestigiada XXL na Freshman 2019 – ou seja, quem a revista classifica que serão os grandes nomes do rap neste ano), um som mais raw das City Girls, ou artistas que são tudo e mais um pouco: como você pode definir Lizzo (que encontrou exposição mainstream em seu terceiro álbum) por exemplo?

O crescimento de nomes femininos na cena (seja rap ou R&B) que não sejam Beyoncé ou Rihanna ou Nicki Minaj é importante para a solidificação de um estilo que domina a conversa cultural a cada dia. O BET Awards que ocorreu na semana passada, por exemplo, trouxe todos os astros que bombaram no último ano em apresentações bem produzidas com a plateia vibrando a cada performance. Nada de audiência entediada, shows preguiçosos e artistas que estão lá sem razão. O BET Awards é hoje o que VMA foi há anos atrás, e isso é um testemunho de que o pop perdeu o bonde da história.

E corre ainda mais riscos quando se pensa que você não tem um som específico que indique um denominador comum – e mais chocante ainda: os nomes novos colocaram esse “denominador comum” lá pra longe.

Eu me lembro de ter ouvido “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” da Billie Eilish e achado tudo bem… Esquisito, especialmente pra mim, que tenho preferência em som orgânico e ouvir instrumentos, e aparentemente a ausência de um gênero específico e definido no som também me trouxe um certo incômodo. Mas ouvindo as faixas isoladas, eu percebi como o som é um reflexo de uma geração que não se prende a rótulos, até mesmo na música.

“bad guy”, o single mais perto do #1 neste momento, é pop, mas é radio-friendly da maneira mais esquisita possível, já que tem o mínimo de produção possível, bateria seca e um outro trap que quebra todas as expectativas que você tinha com a música. Já “when the party’s over” me lembra muito aquele pop onírico da Lana del Rey (que a própria cantora já citou como influência). “you should see me in a crown” tem mais influência trap com pegada eletrônica; e certeza que ela ouviu “Black Skinhead” do Kanye na produção de “bury a friend”. Até mesmo material anterior ao debut, como “Ocean Eyes” é diferente. É um pop mais straight to the point, de boa qualidade também.

(a propósito, quem comparou Billie com Lorde estava delirando. Ela é como se fosse uma Lana del Rey adolescente e sem o lado retrô. Se existe alguma semelhança, está no uso de elementos urban para construir uma sonoridade pop, mas enquanto na neozelandeza a estrutura é familiar, aqui você demora a se acostumar com os twists and turns das músicas)

A sonoridade parece all over the place, mas tem uma lógica. Apesar das letras meio diário adolescente existencial (todos nós já passamos por isso), há comando do próprio som e da imagem mostrada nos clipes que parecem trailers de filmes de terror, e dificilmente podem ser reproduzidos ou imitados sem parecer que é alguém sendo tryhard. No geral, mesmo que exista um componente eletrônico no som, é visível que há influências mais pop piano-driven, trap e hip hop, que refletem a dominância dos últimos gêneros no inconsciente coletivo pop nos anos formativos da artista.

Mas ao mesmo tempo, não parece com a sua música pop típica, o que nos leva a uma conclusão: o interesse de Billie Eilish aqui não é em se definir com gêneros, mas ir além da divisão óbvia de gêneros.

Claro que, numa indicação ao Grammy, ” When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” entraria numa categoria pop (mas não me surpreenderia se a gravadora submetesse a “alternative” porque é muito bold para a categoria, talvez?), mas se você pensar em álbuns que desafiam o que você entende por gêneros definidos, o outro “gen-z” que se adequa de forma ainda mais complexa nessa discussão de “gênero é não ter gênero” é…

Se você não é gen-z e já tem uma carreira sedimentada dentro da caixa tradicional, não fique chocado. Afinal de contas, mesmo que exista um público que não nutra mais interesse em você graças à distância entre os artistas atuais e a idade dos novos consumidores de música, ainda há um fandom e um grupo mais maduro e propenso a consumir música de outras formas – sem contar que os Millennials ainda são um público forte que consome, gasta e é fortemente identificado com os artistas. Então, se você não é um artista de rap ou não faz música dentro da caixinha, de que forma você pode se adequar aos novos tempos?

Isso, eu conto no próximo artigo do “Oi Sumida!” Até já!

Oi sumida! [1] The “Old Town Road” summer

Oi, pessoal! Como todos vocês devem ter percebido, eu realmente sumi do blog porque a vida adulta me pegou de verdade – e estava tentando encontrar um espaço de tempo tranquilo para escrever calmamente aqui no “Duas Tintas” sobre música pop e o estado dela em 2019, um ano meio confuso pra mim, onde não dá pra falar de “gêneros” mais. OPS isso é papo pra outro artigo porque hoje é dia de falar sobre o verão de “Old Town Road”, o híbrido de country-rap que está dominando os charts da Billboard há DOZE semanas consecutivas, sem chance de diminuir (teve até single do Drake lançado e… nada). E com o lançamento do EP “7”, uma apresentação bacaníssima no BET Awards (e o verão americano realmente começando agora), duvido que a faixa perca tração – ainda lidera com folga os charts de streaming (que é onde interessa hoje) e ainda nem chegou ao topo das rádios… Então…

Mas o que interessa aqui é: será que a música vai superar “One Sweet Day”? E sobre os rivais, onde eles erraram na sua busca por tirar Lil Nas X e Billy Ray Cyrus do topo? E como o Grammy vai lidar com “Old Town Road”?

Apesar de um single com dois nomes poderosos do pop como Ed Sheeran e Justin Bieber ter hitado na Europa e estar hitando nos EUA, particularmente não consigo enxergar que é através deles ou desse single, “I Don’t Care”, o pop pode estar procurando um caminho próprio dentro dessa landscape diferente da segunda quinzena dos anos 2010 – pelo contrário, a música só é sucesso porque tem os nomes supracitados envolvidos – se um CHARLIE PUTH lançasse isso ficaria enterrado na irrelevância. Além disso, a música é bem fraquinha para o padrão dos dois artistas, e grita 2015 com essa vibe tropical, island, já realizada pelo próprio Bieber (e de alguma forma mais sutil pelo Sheeran) com melhores resultados. Sem contar o clipe pedindo pra viralizar mas falhando miseravelmente (a ideia era a gente usar imagens do clipe como gifs? Não colou não). A capacidade ubíqua de OTR, especialmente num vídeo que casa potencial viral, uso de tendências quentes como o Yeehaw Culture e uma discussão racial bem colocada, supera facilmente uma música com cara de reciclada. É esperar faixas melhores no quarto álbum do cidadão.

Quanto a Taylor, eu sinceramente acreditava que “ME!” seria o single a destronar OTR, até por ser bastante catchy e agradável ao ouvido, além do sentimento gostoso de nostalgia Noughties (com direito a featuring do Brandon Urie). Além disso, essa estética pastel fofinha meio instagram é bem vinda num ano super tenso e dark como 2019. Mas… “You Need to Calm Down” NÃO é a música para ser #1 contra uma faixa fortíssima como OTR. Primeiro, é anticlimática até em seu refrão, a letra (super bacana e bem-vinda também no apoio da Taylor à causa LGBT) também tenta dialogar com a cultura pop geral através de versos com potencial de virar quote, mas a impressão é de que não funciona bem, e até mesmo o clipe estrelado (com a reconciliação das rivais Taylor e Katy) que ajudou a ganhar streamings (Taylor espertíssima) não garante a ubiquidade da faixa como música em si + clipe + repercussão. Houve repercussão? Claro, mas nem se compara ao break the internet que Taylor causou quando do lançamento do primeiro single do “Reputation”, ou na era “1989” – a impressão que fica é de que as táticas que funcionavam há dois anos atrás hoje não funcionam, especialmente quando a música não é tão forte como segundo single que continua a conversação em torno do novo material. Se você perceber, o discurso em 2019 se tornou rap como principal gênero x músicas que não pertencem a gêneros específicos (papo para outro artigo but ok, vou destrinchar neste momento uma parte da conversa), e os singles lançados até agora pela Taylor são pop… Mas não conversam com a discussão geral.

E para “piorar” a situação das suas faves, Lil Nas X lançou seu EP “7“, que apesar de algumas críticas mistas, é a cereja no bolo de um case de marketing e de música que só me faz virar stan desse menino. O EP tem oito músicas (duas sendo OTR), 18 MINUTOS de duração e a música mais longa tem 2’43”. Ou seja, feito para consumo repetitivo eterno nos streamings. Quanto mais eu ouço “Rodeo”, a música com mais potencial de ser #1 desse grupo, mais eu dou streams, e com 2’39” de duração, eu posso floodar eternamente meu Spotify sem cansar porque a música é curtíssima! Além disso, Lil Nas X entendeu perfeitamente o briefing de 2019. Gêneros musicais? OUTDATED. O EP não tem uma definição específica de gênero, tem duas faixas visivelmente rap (“Panini” e “Kick It”), duas músicas híbridas country-rap (OTR e “Rodeo”) duas músicas com vibe rock/pop punk anos 2000 (“F9mily” e “Bring U Down”) e uma faixa meio R&B moderninha (“C7osure”). A produção é curadíssima e até elegante, e apesar dos versos serem corny em vários momentos, tudo tem uma vibe “adolescente fazendo música” e “adolescente de 13 anos rebelde sem causa” que sinceramente vai ser consumido até a exaustão pelos teens e tweens – são letras simples e fáceis de captar, além de versos perfeitos para legenda de instagram.

Mas o que interessa aqui é: eu não sei em que categoria enquadrar esse EP. Lil Nas X é rapper? Boa pergunta, ele canta em boa parte do EP! Tem ROCK no álbum pra você ficar batendo cabeça! Eu não sei, duvido que a Billboard saiba e o Grammy hahahahahahahahahahha

Como vocês já sabem, o Grammy coloca tudo em caixinhas (os afamados fields) e tanto OTR quanto “7” não fazem sentido em caixinhas (é o problema que Drake enfrentou com “Hotline Bling”, por exemplo). “Old Town Road” fica em rap? Country? O próprio Lil Nas X já disse que a faixa é country-trap, então eu suspeito que a Columbia coloque em “rap/sung” é a única categoria em que dá pra encaixar fazendo sentido e não perdendo a chance de indicação… Acredito que entra em Gravação e eu colocaria em Canção porque a letra é super perspicaz, sinceramente. Já o EP… sinceramente… Como uma das mudanças do Grammy é a inclusão de comitê para pop e rock fields para ter um comitê geral que resolva tretas com artistas que trabalham com mistura de categorias, acho que eles terão MUITO trabalho aqui – evidentemente, tudo depende de como a Columbia vai submeter.


No próximo post do “OI SUMIDA” eu vou falar sobre algumas das novas faces da música em 2019 e me estender mais sobre essa O FIM DOS GÊNEROS (bold statement, hein?) e se isso procede mesmo. Até logo!